Zen & Psicanálise

Daqui a uma semana ocorrerá o lançamento do livro “Mente Comum”, que trata da aproximação entre a prática psicanalítica e a prática do zen, e é de autoria do psiquiatra, psicanalista e monge zen norte americano Barry Magid. Neste evento, como já anunciado aqui no ALD, ocorrerá um debate entre a psicanálise e o zen budismo, sendo que fui convidado a participar do mesmo para falar um pouco a partir da ótica zen.

O que há de comum entre duas áreas aparentemente tão distintas? O que levou tantos pesquisadores e escritores a explorar o tema no passado? Quais as origens desse estudo? Sem entrar muito em detalhes – o que deixarei para fazer na noite do lançamento – vou procurar tecer alguns comentários gerais a respeito do assunto, para apresentá-lo aos que ainda não o conhecem bem.

O Budismo nasceu na Índia do século VI a. C. e difundiu-se por praticamente todo o oriente, atravessando a China e chegando até o Japão. O Zen budismo, fruto principalmente das culturas chinesa e japonesa, baseia-se na experiência original de Sidartha Gautama – a prática da meditação sentada – como principal método de cultivo do desenvolvimento emocional e espiritual. Nessa prática há o elemento do vazio, do silêncio, há a experiência de uma unidade que existe dentro da própria diversidade.

Já a Psicanálise começou a ser desenvolvida no final do século XIX, notadamente após os estudos de Josef Breuer e Sigmund Freud, ambos médicos em Viena naquela época, e prossegue sendo construída até os dias de hoje, já tendo sida revista por grandes nomes como Lacan e Melanie Klein. Na abordagem psicanalítica, a fala ocupa papel central, isto é, a linguagem é usada tanto como medida de diagnóstico quanto terapêutica.

Certamente, quando vislumbramos suas origens, podemos constatar que alguns conceitos budistas já podiam ser identificados no seio da teoria e prática psicanalítica ancestral. Freud, sob influências da filosofia alemã encabeçada principalmente pela vertente de Schopenhauer e Nietzsche, enunciou seu “princípio de Nirvana” e abordou muitos outros pontos que também podiam ser associados à filosofia budista. Ora, sabemos que Schopenhauer havia sido um dos primeiros filósofos ocidentais que tinha se debruçado sobre a doutrina de Buda e incluído vários de seus conceitos em suas obras publicadas na Europa, inclusive o seu conceito niilista da existência – erroneamente associado ao conceito de Vazio do budismo. Assim, há um primeiro enlace sutil na fundação da Psicanálise com algumas concepções orientais, mesmo que de forma não explícita, mas ainda assim visível ao olho atento.

Porém, muito além das fundações intelectuais da escola psicanalítica, podemos dizer que o maior ponto em comum entre essa corrente e a milenar prática do Budismo é, sem dúvida, também o eixo central a que ambas as práticas se ocupam: a questão do sofrimento humano. Não há dúvidas que o sofrimento mental humano é o objeto tanto da análise quanto da meditação, mesmo que uma abordagem e outra sejam diferentes e sustentadas por métodos especificamente característicos. Ainda assim, nos dois caminhos há uma busca por uma emancipação ou por uma realização de um sentido de vida mais ajustado às realidades vigentes.

O interessante é observar que tanto o silêncio como a fala representam possibilidades distintas e, ao mesmo tempo, tão próximas no que diz respeito ao encontro do homem consigo mesmo. A linguagem, e  também aquele espaço onde ela se aloca – o Vazio -, podem igualmente dissolver o sofrimento que torna o ser humano um prisioneiro, ainda que por caminhos diferentes. Sem dúvida, há pontos em comum entre essas duas práticas que merecem nossa atenção, assim como existem aspectos que devem ser respeitados como específicos de cada um desses métodos. É sobre essas aproximações, ou não, que nosso debate da próxima semana tratará.

Gustavo Mokusen.

Lançamento do livro “Mente Comum” e debate sobre Zen e Psicanálise:

Dia 31/10, quarta feira às 19:30, no Teatro da Assembléia Legislativa de Minas Gerais. Entrada franca.

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Uma opinião sobre “Zen & Psicanálise”

  1. Gustavo, primeiramente, gratidão por tantos textos que me clareiam tantas coisas. É um presente!
    Não poderei estar presente no lançamento do Livro “Mente Comum”. Moro em Sete Lagoas e estarei ainda no trabalho neste dia.
    Gostaria que você me dissesse como posso adquiri-lo,.Com certeza, me ajudará demais.
    Obrigada.
    Nelzi

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