Uma porta, duas maçanetas

Esses dias recebi um e-mail de um leitor do ALD sobre uma decisão que era necessária tomar e para a qual ele dizia que: “Não consigo decidir sobre o assunto. Já parei para pensar, analisando os pontos positivos e negativos e ainda não resolvi. Sempre tive uma dificuldade muito grande em tomar decisões, tenho medo do novo, da mudança e do futuro.”

O processo decisório é um processo que nos prepara para um (re)nascimento, para a mudança, para a novidade que bate à porta das nossas vidas. Para o novo entrar, o velho tem que sair. Embora saibamos tudo isso na teoria, não é raro nos sentirmos incomodados quando temos que tomar uma atitude e decidir em dada circunstância.

Um dos principais obstáculos a uma tomada de decisão e às mudanças que ela traz chama-se “zona de conforto”. É claro que numa mudança, numa escolha por um caminho novo nunca teremos certeza absoluta sobre os resultados que virão devidos a essa decisão. Por isso nossa tendência é querer agarrar o que já consideramos que temos “garantido”. Fechamos a mão, tentamos segurar aquilo que nos dá bem estar, ou pelo menos que achamos que nos traz benefícios. Esse é o que se chama de inércia da zona de conforto, ou seja, há uma tendência de ficarmos paralisados numa atitude mental de indecisão se focamos demais nas incertezas que rondam qualquer decisão a ser tomada. E é claro que essa inércia pode se transformar num empecilho que simplesmente nos priva daquilo que poderia renovar nossos mais variados projetos de vida.

Se investigarmos essa “zona de conforto” com atenção, veremos que ela não passa de uma ilusão. É simplesmente nossa memória querendo se agarrar nas experiências prazerosas do passado, querendo projetar no futuro aquilo que viveu no passado. A ilusão dessa projeção se configura na crença do controle sobre as ilimitadas variáveis que não dependem da nossa própria vontade. Pensamos que podemos controlar tudo de forma a nos mantermos dentro de um círculo no qual somente coisas agradáveis acontecem, dentro do qual excluímos os aspectos indesejáveis que nos incomodam. É óbvio que essa é uma forma muito poderosa de autoengano, pois sugere que podemos controlar não apenas nossas vidas, mas também a dos outros. Se acreditamos firmemente nessa zona de conforto e na sua proteção, somos capazes até de fazer guerra em nome disso.

É a comparação que reforça a ideia da zona de conforto. Comparamos o que temos com o que podemos ter ou não ter no futuro. Mas esse tipo de comparação é uma forma de negar o aspecto insondável da vida, pois na verdade nunca sabemos ao certo o que irá emergir no próximo instante. O uma pedra pode bloquear a passagem e o caminho pode não levar mais ao cume da montanha. Uma relação inicialmente difícil pode se transformar depois em um sólido casamento. Começamos um curso e no meio dele conhecemos outro mais apropriado. Estamos saudáveis hoje, mas amanhã adoecemos. De fato, só conhecemos o instante do agora. Tudo o que extrapola isso, por mais provável que seja, são apenas projeções.

Se você fecha demais a mão, você não poderá agarrar mais do que alguns grãos de areia. Mas se você abre a mão para o que há de vir, toda a areia do mundo poderá passar e escorrer por ela. A princípio, você não decide exatamente o que acontecerá no futuro; você decide se abrir para a chance das coisas ocorrerem, sejam elas como forem. Às vezes serão como você espera, às vezes não. Mas quando você entende que é impossível controlar tudo de forma a se responsabilizar (ou os outros) por todas as consequências de uma decisão, então o processo decisório fica mais leve. Você é coautor, mas existem as outras pessoas e existe também o insondável aspecto da inteligência Universal.

Uma coisa é certa: você só saberá o que há atrás de uma porta se você a abrir. O que a vida lhe reserva por detrás dela será sempre um mistério, mas a decisão de girar ou não a maçaneta é sua. A ironia é que, às vezes, se não tomamos a decisão, vem alguém do outro lado e abre a porta assim mesmo.

Gustavo Mokusen.

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