O fabuloso sino de meditação

Na prática zen budista é usado um sino para marcar o início e o fim de cada sessão do zazen, a meditação sentada. Quando o zazen começa, o sino toca três vezes, e quando acaba toca uma vez. É uma experiência muito singular e profunda que temos quando estamos sentados em silêncio na sala de meditação e ouvimos de repente o som do sino quebrando a atmosfera e penetrando cada centímetro de espaço – “gooonnggg!”. Quando estamos no perfeito estado balanceado da mente sentada, isto é, na pura experiência da unidade corpo-mente, o som do sino e a sensação da audição do som do sino conectam-se em uma única e contínua realidade – a realidade do momento presente.

Isso não significa, entretanto, que alguma coisa tenha sido alcançada nessa realização do momento presente. A unidade contínua já existia antes mesmo da nossa experiência consciente sobre ela. No muito, dizemos que nos atualizamos com essa realidade unificada da existência. Então, nessa perspectiva, o som do sino funciona como um despertador que nos lembra daquilo que esquecemos, ou seja, é um chamado de volta àquilo que nunca havia sido subtraído da realidade – sua própria natureza contínua.

Quando se pratica por algum tempo de forma a amadurecer essa experiência, começa-se então a perceber que não somente o sino, mas tudo ao redor nos chama para essa unidade explícita da realidade. O som do carro que passa na rua, a chuva que cai lá fora, a dor nas pernas, a sucessão interminável de pensamentos que aparecem e desaparecem na mente – tudo, absolutamente tudo que emerge no seio do momento presente é um chamado para nos atualizarmos com o fluxo do agora.

É neste ponto que a vida inteira se torna um grande zazen, uma grande sessão de meditação. A ideia de uma prática confinada ao zendô (sala de meditação) é dissolvida por uma experiência alargada de uma prática contínua. O “gooonnggg!” do sino passa a ser a pilha de louças sujas, o trabalho a ser feito, um parente que demanda atenção, o choro do filho e – não somente as coisas sérias e árduas, mas também as alegrias dessa vida – o bate papo com os amigos, uma partida de xadrez, um passeio com a pessoa amada ou simplesmente um pedaço de bolo delicioso. Tudo isso lhe diz: “desperte, não desperdice esse único e inigualável momento que jamais voltará”. É nesse ponto que começamos a fazer as pazes com a vida, tanto com seus aspectos mais difíceis quanto com as coisas mais agradáveis.

E a paz é sempre necessária para a libertação. É só quando cessamos a guerra contra algo, quando paramos de perseguir ou de fugir de alguma coisa é que podemos realmente experimentar uma condição mais livre, menos condicionada. Mas isso exige uma enorme atenção, um movimento consciente para desarmar aquilo que está prestes a ser disparado a cada instante, ou seja, nossos padrões reativos mais enraizados, nossas tendências repetitivas que nos levam ou para o ataque persecutório ou para a fuga da negação. Ou seja, nosso ancestral mecanismo de buscar o prazer e evitar a dor a qualquer custo, e isto se resume na inclinação de sermos controladores de tudo – controla dores.

É aí que voltamos ao ponto de origem, ao nosso fantástico sino de meditação. Ele nos ajuda nessa tarefa, de despertar a cada instante, nos chamando a cada momento de volta ao real, ao imediato, que sempre é livre e desobstruído de obstáculos. Quando ouvir o “gooonnggg!” do sino tocando, seja lá o que for, pare tudo, olhe para si e simplesmente responda para você mesmo: estou vivendo ou desperdiçando esse instante?  O momento presente sempre flui e a nós nos cabe atualizarmo-nos com esse constante fluxo do agora, se quisermos realmente encontrar aquela paz que nos permite desfrutar da alegria que existe em cada movimento do Universo.

Gustavo Mokusen.

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