Unidade implícita

Fenômenos de não-localidade e não-linearidade no mundo microscópico (por exemplo, fenômenos da estrutura quântica da matéria como interferência, dualidade onda/partícula ou os próprios saltos quânticos de níveis; ainda, no mundo macroscópico, ocorrências como   transmissão de pensamentos, deja-vu, comunicações telepáticas, etc) apontam para a existência de uma Unidade integrada entre realidades aparentemente apartadas, uma vez que a livre-comunicação e o livre-trânsito passam a se manifestar como propriedades da estrutura do Universo. As situações de confinamento são apenas aproximações abstratas das situações reais infinitamente complexas e interligadas. Esta complexidade é ao mesmo tempo caótica e organizada. É caótica na medida em que uma alteração num ponto do sistema provocará, em alguns casos, colapsos existenciais absolutamente imprevisíveis, alterações subseqüentes totalmente não-lineares. E é organizada na medida em que existe um padrão caótico que se repete, uma desorganização que segue um padrão de repetição, tal como as figuras geométricas formadas pelos redemoinhos na superfície de um rio ou como o desenho bipartido dos ramos de uma couve-flor. São os fractais, elementos geométricos que manifestam ao mesmo tempo caoticidade e previsibilidade.

A complexidade de um fractal, ao mesmo tempo caótica e padronizada, é o ícone máximo da nova Ciência. Traduz a situação complexa de um sistema ao mesmo tempo previsível e ao mesmo tempo caótico, onde cada alteração em um ponto provoca uma reorganização de toda a rede. Revela uma Unidade deslocalizada que, em comunicação silenciosa, brinca com a dualidade local.

Todas estas profundas transformações sugerem um retorno a uma abordagem monista já realizada por inúmeras culturas do passado. Ou seja, a idéia da realidade como uma Unidade essencialmente não dualista ganha força com as descobertas da nova Ciência. Não que sejamos parte de um Todo, porque assim ainda nos configuramos como uma parte separada, mas, antes, seríamos o próprio Todo. Esta é uma das conclusões inevitáveis de todo este avanço intelectual.

Por outro lado, várias tradições – especialmente as orientais e as indígenas – já haviam nos alertado sobre este fato fundamental, o fato de que somos uma única coisa, uma unidade, humanidade. Por ironia do destino, a mesma Ciência que friamente colocou o homem máquina do séc. XVII dentro de um grande relógio que seria o Universo mecânico, dentro mas separado dele, a mesma Ciência revela agora sutilezas que abrem as portas de uma outra dimensão da realidade. Afinal, a coisa e a consciência da coisa não são dois aspectos diferentes do mesmo fato.

Nas palavras de Mestre Dogen Zenji, fundador do Zen Budismo no Japão no séc. XII:

Estudar Budismo é estudar a si mesmo.

Estudar a si mesmo é esquecer de si mesmo.

Esquecer de si mesmo é estar unificado com todas as coisas.

Estar unificado com todas as coisas é estar em completa e serena Iluminação.”

Mestre Dogen usava a expressão “ser-tempo” por volta do ano de 1230, quando escrevia as obras que seriam a referencia da escola soto zen. É impressionante o que, 700 anos antes de Einstein e da Física Quântica, podemos ler nestas obras sobre a unidade implícita do Universo, traduzida por Dogen pela expressão “simultaneidade ser-tempo”:

“Um daqueles grandes praticantes [budista] dos tempos antigos de certa feita disse a seguinte frase: “A simultaneidade no tempo se encontra no mais elevado cume das montanhas, e no mais profundo do oceano insondável, a simultaneidade no tempo é a forma de demônios e buddhas, a simultaneidade no tempo é o cajado de um monge, a simultaneidade é um hossu [abanador de moscas], a simultaneidade no tempo é uma pilastra redonda, a simultaneidade é uma lanterna de pedra, é fulano, é sicrano, é a terra e o céu.

Simultaneidade quer dizer que o tempo abarca toda existência; isto é, ‘o tempo é a existência, e a existência é o tempo’. A forma de uma estátua de Buddha é a simultaneidade no tempo. O tempo é a natureza radiante de cada momento que se esvai; é o cotidiano no presente, agora. Não pode haver dúvidas que um dia contenha vinte e quatro horas, apesar de não temos sido nós mesmos que o calculamos assim. A mutabilidade do tempo é algo de auto-evidente, então não existe motivo algum para que disto duvidemos; mas isto não significa que saibamos exatamente o que venha a ser o tempo. Em geral, quando se duvida de alguma coisa, isto significa que aquilo ainda não foi completamente absorvido e compreendido, permanecendo sem solução até que mais tarde o resolvamos; mas mais tarde provavelmente as dúvidas mesmas já serão de uma natureza diferente. Mesmo o processo de dúvida em cada caso é constituído pelo tempo.

(…)

O mundo inteiro está incluso em nós mesmos. É este o princípio por trás que tudo no mundo nada mais é que o tempo. Cada instante de tempo cobre o mundo todo. Quando compreendemos este aspecto da simultaneidade no tempo, isto nada mais é que o começo de nossa prática e compreensão. Ao chegarmos neste ponto, podemos ter uma muito clara compreensão de toda e cada prática: um capim no prado, cada objeto, cada coisa viva que seja, não pode de forma alguma ser separada do tempo. O tempo inclui todos os seres e todos os mundos.

(…)

Contudo não devemos ficar achando que o tempo meramente se esvai; não devemos estudar apenas o aspecto passageiro do fenômeno do tempo. Se estivesse realmente apenas se escoando, haveria uma distinção entre nós mesmos e o tempo. Se pensarmos que o tempo é somente uma coisa que vai embora, e se esvai, não chegaremos jamais a esta simultaneidade do tempo. O significado central da simultaneidade do tempo é o seguinte: cada ser no mundo inteiro está ligado visceralmente um com o outro, e não pode jamais ser separado desta simultaneidade que é o tempo. O tempo é a simultaneidade, e desta forma é meu próprio tempo verdadeiro.”

Capítulo 16 do Shôbôgenzô de Dôgen Zenji (1200-1253).

Gustavo Mokusen.

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