Receita inversa

Normalmente, entre o impulso de criticar e a ação de ajudar, nossa tendência humana se inclina mais facilmente para a crítica.

Entre o impulso do apego e o exercício do desapego, nossa tendência é de se apegar.

A reatividade, muitas vezes agressiva, é por vezes mais presente em nosso comportamento do que uma atitude pacífica.

Entre a acumulação e a doação, geralmente optamos pela primeira.

Ataque, contração, apego, retenção; uma investigação profunda e honesta em nossos instintos básicos revela que a herança do homem primitivo ainda se encontra presente em nosso ser. Em algumas pessoas isso é mais evidente, em outras menos, mas ainda podemos testemunhar essa herança milenar das cavernas emergindo pelo menos de vez em quando.

Tudo isso revela que, desde tempos remotos, algumas emoções e impulsos se instalaram na estrutura psicológica do ser humano. Digamos que eles sejam como uma programação que herdamos de nossos ancestrais, assim como herdamos características físicas e genéticas, e desta forma esse padrão mental se perpetuou em nossa raça através dos tempos. Digamos assim, é nossa tendência primitiva, são impulsos que desenvolvemos na infância da humanidade.

 Mas essa programação psicológica que se instalou e se perpetuou na psique humana surgiu a partir de uma emoção negativa chave: o medo. Podemos dizer que o medo ancestral do homem está por trás de todas as demais emoções negativas que ele experimenta. É por medo que atacamos, que o apego surge, que o músculo se contrai e que buscamos acumular – pois tememos a perda. Esses eram os métodos que nossos ancestrais utilizavam na tentativa de evitar as dores e o desprazer do mundo desconhecido que se apresentava.

 Desta forma, podemos assim dizer que o medo está intimamente conectado – consciente e inconscientemente – ao sofrimento. Se “toda dor vem do desejo de não sentirmos dor”, o medo pode ser então entendido como o elemento que sustenta o desejo de não sentir dor. Ou seja, o medo e a dor estão em relação direta um com o outro.

É aí que entra a receita inversa.

Todas as vezes que estivermos lidando com a raiva, a agressão, o apego e demais emoções negativas, em nós mesmos ou nos outros, podemos realizar uma manobra importantíssima para neutralizar esses impulsos primitivos. Ao invés de focar no próprio sentimento de raiva, ou no próprio ato de apego, ou ainda na crítica que recebemos ou que estamos prestes a disparar a alguém, podemos realizar a manobra de procurar pela base que sustenta esses sentimentos e atitudes, ou seja, o medo que está por trás deles. No lugar de reagir agressivamente numa situação raivosa, pergunte-se com lucidez mental: toda essa agressividade está a serviço de qual medo? Esse ataque é consequência impulsiva de qual medo? Podemos fazer o mesmo em outras situações. Quando estiver apegado a um ponto de vista numa discussão calorosa, ou momento em que reagir a uma crítica frontal, pergunte-se: minhas atitudes estão sendo regidas pelo medo de quê? O que temo perder? O que temo sofrer? Que tipo de dor ou sofrimento estou tentando evitar?

Apenas ver e reconhecer esse medo operando dentro de nós já é retirar dele mais da metade de sua influência. É como lançar luz num quarto escuro: se você vê o que tem lá dentro, então não há mais lugar para sentir medo. A luz entra e o medo sai.

A luz que precisamos lançar sobre nossos medos é a luz do entendimento, do olhar que testemunha as coisas como elas são, da compreensão de como atuamos no mundo. É como pegar toda a atenção que temos disponível e focalizá-la em determinada ocorrência. Ao fazer isso, o temor diminui e a liberdade da existência pode ser experimentada, assim como desfrutamos do sabor de morangos silvestres encontrados numa caminhada despreocupada por uma trilha na floresta.

Gustavo Mokusen.

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3 opiniões sobre “Receita inversa”

  1. Sensacional! Realmente o medo é uma coisa bem trabalhosa de se lidar, ainda mais na sociedade atual em que vivemos, lembro-me de uma frase que até hoje não me esqueci – “Uma das maiores virtudes que uma pessoa pode ter é o desapego.” e realmente é, nós ficamos muito apegados as “nossas coisas”, é bom sempre parar pra pensar que tudo o que a vida nos dá, em algum momento sem exceções, ela nos tira, nem mesmo o nosso corpo é nosso, é apenas um veículo emprestado pela mãe natureza para que nós possamos nos manifestar neste local perdido no Tempo e Espaço, chamado Terra.

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