Ética e Meditação

Recebi um convite do Professor René, Doutor em Filosofia que leciona aqui em BH, para fazer uma breve palestra na universidade em que ele trabalha. Trata-se de um seminário sobre Ética que ele promove já há alguns anos, e essa é a segunda vez que recebo o convite para falar sobre “Budismo e a Ética na atualidade”, junto com outros representantes de diversos segmentos religiosos. A ideia seria expor como a prática budista poderia contribuir para a ética nos dias atuais, e o seminário ocorre na próxima quarta feira, dia 12/09.

Gostaria de compartilhar no ALD algumas ideias e reflexões que levarei para o seminário, além de convidar os interessados a participarem do evento.

Inicialmente, vamos investigar um pouco sobre a ética. A palavra grega que deu origem ao termo foi “ethos”, que na tradução direta significa “a natureza de algo”, “a morada”. Digamos assim, a essência original de alguma coisa. Entretanto, o termo “ethos” foi traduzido pelos romanos para “Mos” (plural: “Morales”), que representava um código de conduta social baseado no julgamento de “bem” e “mal”.

Sem adentrar muito em questões filosóficas, já deu para perceber duas direções distintas que foram dadas ao conceito de “ética” nos primórdios. Uma aponta para dentro, para a natureza, a essência de algo. A outra vem de fora como um código moral de comportamento.

O Budismo, que se originou no século VI A.C., é essencialmente uma prática. E a sua prática fundamental é a meditação sentada. Através dessa prática experimenta-se um estado balanceado de corpo-mente e, dessa forma, o sujeito torna-se unificado e em harmonia com o objeto, a realidade ao redor. Digamos assim, é a descoberta mais profunda da unidade fundamental entre esse sujeito e a realidade que ele experimenta. Ou seja, dentro e fora não são duas coisas distintas e separadas nessa prática.

Quando você realiza que as coisas e pessoas que estão ao seu redor não estão desconectadas de você mesmo, então uma especial atenção é dada a elas. E quando uma especial atenção é dada à realidade em que estamos inseridos e conectados, então cada movimento, cada acontecimento, cada fato é uma forma de conhecer a si mesmo.

Por incrível que pareça, as concepções grega e romana de ética não são, de acordo com a prática budista, duas abordagens distintas e antagônicas, mas sim aspectos complementares de uma mesma realidade.

Por isso o caminho do Budismo foi chamado de Caminho do Meio, que se refere não somente ao meio termo entre pares de opostos, mas também à totalidade do meio no qual está inserido a existência humana e à sua realidade subjacente.

É através da descoberta dessa unidade, e da posterior organização que ocorre na consciência do ser devido a ela, que um estado de equilíbrio e harmonia é reestabelecido entre esse sujeito, seu meio e seus semelhantes. Ou seja, o processo da tomada de consciência é um processo de organização interior, de investigação, conhecimento e reconhecimento da natureza mais íntima da realidade.

“Conhece-te a ti mesmo, e conhecerás os Deuses e o Universo inteiro”, diriam os gregos.

Dessa forma, poderíamos dizer que a prática da meditação e sua consequente organização interior leva o sujeito a forjar uma ética centrada não apenas em si mesmo ou baseada somente em demandas morais de comportamento; ele desenvolve uma espécie de consciência unificada e interligada entre necessidades subjetivas e objetivas, podendo assim experimentar uma relação mais equilibrada e harmoniosa em sua vida.

Naturalmente essa não é uma prática fácil, especialmente quando levamos em consideração a complexidade das demandas que se apresentam todos os dias a nós. Vivemos em um mundo pós-moderno onde poderosas influências externas nos ditam a todo o momento modelos de comportamento que deveríamos seguir. O consumismo, o materialismo e uma proposta baseada no individualismo pretendem nos oferecer um mundo onde o acúmulo, a posse e a aquisição seriam o objetivo supremo. Nessa proposta, a felicidade e a alegria foram estrategicamente associadas ao sentimento de prazer, de satisfação, cuja efemeridade garante a sua permanente impermanência e, por isso, o ciclo de consumo é sustentado na contínua busca por uma felicidade satisfatória. Para criar a falsa sensação de segurança dentro desse modelo fechado em si mesmo, expressões e conceitos como “direitos do consumidor” e “ética do lucro” foram introduzidos e usados no lugar dos direitos humanos universais e da ética comum a todas as relações humanas. Associe-se a isto uma campanha publicitária áudio visual em massa, cujo teor é quase completamente voltado para as relações de consumo em suas mais variadas formas – que vai desde a violência até o uso indiscriminado da sexualidade para fins comerciais – e temos então o fato de que somos bombardeados o tempo inteiro por uma proposta social muito sedutora, porém absolutamente ineficiente quanto à realização humana e a obtenção de bem estar coletivo.

É claro que nesse modelo nunca se alcançará a tão almejada paz de espírito que o homem busca através de suas variadas formas de expressão nesse mundo, como a religião, a arte ou a ciência. A despeito de tudo o que se prega, o que assistimos é um mundo crescente em confusão e desorganização. A propósito, embora hoje exista tanta informação e conhecimento como jamais existiu antes, isso não foi suficiente para eliminar a maior parte do sofrimento humano e dos problemas crônicos da nossa espécie como as guerras ou as desigualdades sociais. Pelo contrário, o que vemos é o surgimento de novas modalidades de desequilíbrio como o estresse, a depressão ou mesmo um crescente egoísmo e isolamento social.

Longe de levantar a bandeira pessimista ou uma perspectiva negativa frente aos desafios que se apresentam, o que nos interessa é encontrar soluções e formas positivas de lidar com as dificuldades inerentes ao nosso tempo. É nesse viés que iremos explorar a prática da meditação como uma poderosa ferramenta que pode ser muito útil nessa jornada complexa, arriscada e cheia de desafios que é a existência humana.

O seminário irá ocorrer no auditório da Faculdade de Minas – FAMINAS, na Av. Cristiano Machado 12.001, ao lado da Estação Vilarinho de Metrô, na próxima quarta feira, 12/09, às 19:00 horas. A entrada é franca e todos estão convidados.

Gustavo Mokusen.

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