Escolho, logo existo.

Uma sucessão de decisões a serem tomadas: assim podem ser encaradas nossas vidas. Algumas decisões são cotidianas e envolvem pequenas consequências, como escolher o lugar para almoçar e o que comer; já outras são menos frequentes, mas envolvem grandes implicações – a opção por uma carreira profissional, a decisão de se mudar de um país ou cidade e até mesmo a escolha de ter ou não filhos. De qualquer forma, o processo decisório está presente na realidade e é impossível se abster dele; mesmo a decisão da omissão ainda é uma escolha a ser tomada que traz suas próprias consequências.

Para todas as escolhas que podemos tomar existe um processo decisório associado. Às vezes ele é sustentado por um método de comparação, como comparar preços de um carro a se comprar. Outras vezes, é o fator emocional ou psicológico que direcionará o desfecho, como, por exemplo, quando buscamos a aprovação das pessoas que nos são próximas em determinada escolha. Neste caso fazemos perguntas a essas pessoas e esperamos por respostas e conselhos que nos auxiliem, uma vez que possivelmente não possuímos toda a energia e clareza necessárias para a resolução de uma situação. Ainda, há decisões que são tomadas a partir de situações que nos obrigam a agir rápido, como salvar a vida de alguém, e assim atender a uma demanda que se nos apresenta.

Eu prefiro dizer que no processo decisório ocorre, de fato, uma complexa mistura de todos esses elementos emocionais, psicológicos, intelectuais, afetivos, todos eles atuando junto com a necessidade que se apresenta e que demanda por uma escolha. Há pessoas que têm facilidade para tomar tais decisões e assim se sentem mais confortáveis quando atravessam um processo como esse; no entanto, há outras que não possuem tanta habilidade para resolver uma situação de impasse e por isso podem se sentir bastante estressadas ou impotentes para decidir. Quando isso acontece, quando as dúvidas se tornam maiores que as certezas, a insegurança e o medo de se tomar uma direção “errada” podem despontar na mente e, em uma espécie de círculo vicioso, começam a alimentar as dúvidas ainda mais.

É claro que durante uma escolha sempre haverá dúvidas, pois não podemos saber ao certo exatamente quais serão as futuras consequências de uma ação pela qual optamos no presente. Temos sempre uma perspectiva limitada sobre a realidade, mas isso não significa também que temos que aumentar as incertezas a um tamanho maior do que elas possuem. Assim, a compreensão de que nossa razão não pode, de fato, ter o controle e conhecimento de tudo é o primeiro passo para se libertar do sofrimento causado pela dúvida e pelo medo. Não faz sentido temer o que não se conhece ou – pior – o que ainda não existe, e dessa forma não faz sentido sofrer por antecedência.

Outro ponto interessante é que sempre quando um processo decisório se apresenta a nós, ocorre então que temos a tendência de criar uma bifurcação mental entre um “caminho certo” e outro “caminho errado”. Começamos a imaginar uma escolha e suas implicações, e depois comparamos tudo isso com outra escolha possível e outras consequências. Começamos a pensar em termos de certo e errado, de bem e mal. Mas tudo isso não é real. É abstração antecipada. Não estamos vivendo nada disso e, portanto, simplesmente não sabemos ainda nada. É muito mais útil trocarmos essa perspectiva de conflito por outra mais fluida e menos sofrida: o que quer que seja eleito será, da mesma forma, nosso caminho. Se escolhermos ir numa direção, ali será a direção correta. Se escolhermos a outra, ali também será o certo. Na verdade, estritamente falando, não há bifurcação nenhuma na realidade, pois o caminho apenas vai e vai, nunca se divide. A realidade nunca é fragmentada, nós é que criamos “outras possíveis opções” na cabeça. Mesmo que uma decisão tomada não traga os frutos esperados, como em uma relação conjugal, por exemplo, quem disse que isso significa que algo deu errado? Apenas significa que o que se desenvolveu foi diferente do que era esperado, mas isso não pode ser taxado de forma apressada como fracasso. Até mesmo porque, pode ser que aquilo que estamos esperando esteja distorcido da realidade em si.

Por último, há outro aspecto importante chamado “meio a meio”. Tudo o que é forçado demais perde sua fluidez ou naturalidade. Da mesma forma, excesso de omissão pode ser prejudicial. Ou seja, nas pequenas ou grandes decisões há um tempero, um caminho do meio entre excesso de atividade e a passividade da omissão. Fazemos nossa parte, agimos até onde nos cabe, colhemos informações, conversamos, pedimos conselhos e tudo o mais. Essa é a nossa metade, nossa atividade. Mas eu também costumo dizer que sempre é possível perceber algum tipo de sinal que a vida nos traz e que nos ajuda a escolher, uma espécie de dica do Universo. Uma coincidência que ocorre na rua, uma placa de carro, um telefonema inesperado, alguém que diz algo do nada. Essa é a outra metade que se apresenta a nós através dos mais misteriosos caminhos. Olhe ao seu redor. Para percebê-la temos que estar receptivos, abertos e tranquilos. Meio a meio, nem muita rigidez e nem muita omissão.

Citando “Os ensinamentos de Don Juan”, de Castañeda:

“Qualquer caminho é apenas um caminho, e não constitui insulto algum – para si mesmo ou para os outros – abandoná-lo quando assim ordena seu coração. Olhe cada caminho com cuidado e atenção. Tente-o tantas vezes quantas julgar necessárias… Então faça a si mesmo e apenas a si mesmo uma pergunta: Possui esse caminho um coração? Em caso afirmativo, o caminho é bom. Caso contrário, esse caminho não possui importância alguma.”

Gustavo Mokusen.

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