A prática da meditação na escola

Há uns dez anos, enquanto preparava um projeto de inserção da prática de meditação para alunos do ensino médio, um colega de profissão me perguntou qual era a finalidade daquele projeto. Como Físico, sabia que por trás daquela pergunta estava operando o velho paradigma cartesiano da causa e efeito, questionando a validade de uma proposta mais sistêmica que, aparentemente, não traria um ganho imediatamente aplicável aos estudantes. Mas eu sabia que essa interpretação estava equivocada e era apenas superficial. E essa questão ainda é mais atual do que há uma década atrás.

A característica geral da sociedade moderna é a troca, o acúmulo e a manipulação de muita informação. Vivemos claramente o mito da Ciência, da velocidade de processamento, da quantidade de conhecimento adquirida. De certa forma, gastamos quase toda nossa energia voltando-nos para a análise do mundo exterior e para a extração de informação deste cenário que nos cerca. Ao mesmo tempo, ironicamente, percebemos que só a detenção deste saber não garante nosso equilíbrio como seres humanos plenos e nem garante o bom uso dos conhecimentos adquiridos. Na verdade, insinua-se quase o contrário: como efeito dessa fragmentação excessiva da atenção em milhares de coisas novas, surgem problemas como o stress mental, os problemas de déficit de atenção,  o vazio existencial frente à enormidade do saber a ser adquirido e a falta da capacidade de relacionamento entre os milhões de fragmentos desse mesmo saber. Nessa multiplicidade desconexa, discernir entre o essencial e o acessório é uma habilidade rara.

Nesse cenário complexo nasceu a crise que assistimos no atual sistema educacional: os alunos  estão perdendo a capacidade de abordar criticamente o saber e também apresentam uma desmotivação crescente ao aprendizado, juntando-se a isso uma incapacidade generalizada de atenção e concentração em seus níveis mais elementares. Não que o aluno não goste de aprender, mas o fato é que ele não consegue mais se adequar aos antigos processos de acúmulo de informação fragmentada. Em tais processos, o que se infere é que a capacidade para estabelecer e manter comunicação com o real fica confinada ao nível da idealização cartesiana puramente abstrata, o que não sustenta mais nossa necessidade de encontrar interações com o conhecimento e, principalmente, com a vida que nos cerca. Sem falar da sobrecarga de conteúdos que, de alguma forma, deveria ser equilibrada, o estudante recebe pouca ou nenhuma atenção aos processos não racionais presentes nele, que não podem mais ser negados e que interferem efetivamente no aprendizado.

Por outro lado, se gastamos muita energia para interagir com esse mundo exterior de estímulos e conhecimentos, sobra-nos muito pouca para desenvolver a nossa perspectiva interior, aqueles elementos que vão ordenar, relacionar e absorver as informações proveniente do mundo que nos cerca. E isso gera um profundo e sutil desequilíbrio no processo de aprendizado, exteriorizando-se, por exemplo, como o problema generalizado em sala de aula chamado desatenção.

 Essa energia de interação sujeito-conhecimento manifesta-se principalmente na forma do “vetor atenção”, habitualmente orientado apenas para fora do sujeito e em direção ao objeto do conhecimento. Como professores, esperamos que o aluno divida um pouco mais a orientação unilateral desse vetor de forma que ele também se inclua conscientemente no processo de aprendizado, o que evitaria a pura assimilação mecânica de informações. Assim, reclamamos intensivamente pela atenção do aluno, mas esquecemos de que quase nunca o ensinamos a desenvolvê-la interiormente; nossa prática de ensino é, quase sempre, voltada apenas para o mundo exterior, o que exclui automaticamente uma grande parcela dos processos internos do sujeito do aprendizado. Mas a questão é ainda mais profunda: quando tentamos desenvolver a atenção do estudante, a tentativa falha porque ela é estruturalmente contraditória – pedimos a ele que use sua mente para concentrar a própria mente – o que praticamente não surte nenhum efeito. Tudo indica que necessitamos urgentemente de desenvolver e ajustar uma nova via de prática para resolver este impasse. Precisamos equilibrar este gasto enorme de energia com os processos puramente intelectuais e exteriorizados, uma vez que possuímos também uma considerável natureza interior não intelectual que, obviamente, interfere nos processos racionais do pensamento e por isso necessita de desenvolvimento adequado.

Essa via, por necessidade fundamental, deve incluir o corpo físico como âncora básica dos processos mentais, pois a exclusão do corpo gera desatenção. Assim, quando se tem pouca ou quase nenhuma atenção, é necessário desenvolvê-la a partir de um ponto sólido (o maior erro consiste em tentar desenvolver a atenção por ela mesma, através de recursos puramente mentais – se não a possuímos, como podemos mantê-la e desenvolvê-la?).

É possível incluir o corpo com o trabalho mental de forma prática e adequada ao ambiente escolar. O processo que equilibra corpo e mente através do uso consciente da respiração denomina-se, historicamente, meditação. É claro que existem várias técnicas de meditação, cada uma com seus objetivos específicos. Aqui estamos nos referindo àqueles métodos que auxiliam o desenvolvimento físico e mental equilibrado do ser humano, e por isso contribuem para uma formação mais saudável do sujeito.

A meditação, pois, pode e deve ser incluída para uma formação mais consistente do ser humano. É uma ferramenta que nos torna mais capazes de lidar com os problemas mais freqüentes na vida, não apenas os escolares, mas também aqueles ligados à nossa era: a falta de atenção e concentração, os desequilíbrios nas relações pessoais e o fenômeno da violência cada vez mais presente, por exemplo. Uma nova abordagem ao conhecimento experimental, baseada não apenas nos processos racionais do pensamento, mas também na poderosa linguagem do corpo que inclui as emoções e as reações.

Durante a prática de meditação, podemos experimentar um estado de consciência absolutamente novo: o corpo em profundo relaxamento e a mente desperta das distrações. Embora haja o repouso físico semelhante ao estado de sono – metabolismo basal provocado pela respiração lenta e profunda, com, por exemplo, redução dos níveis de cortisol no corpo (hormônio associado ao stress) – o nível de autoconsciência está elevado e a mente está exercitando a atenção sobre si mesma. Quando corpo e mente estão neste equilíbrio natural, o alinhamento entre atenção, autoconsciência e concentração é inevitável e podemos tratar e trabalhar o stress mental e físico; podemos comandar o relaxamento da mente e do corpo; podemos organizar nossas ações de forma mais eficiente e, ainda, melhorar nossas relações diárias, fator sempre incluído no processo de prática de meditação em grupo.

Gustavo Mokusen.

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2 opiniões sobre “A prática da meditação na escola”

  1. Olá Gustavo! Gostei muito do seu texto e, se possível, gostaria de receber algum material sobre a meditação nas escolas, pois estou desenvolvendo um projeto de extesão universitária sobre esta temática. O objetivo do projeto é inserir a práticas da meditação em duas escolas de ensino fundamental. Agradeço seu auxílio. Abraços fraternos.

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    1. Olá, sou aluno de graduação em Física (Licenciatura). Achei muito bom o seu artigo, estou pesquisando sobre isso e gostaria de contribuir de alguma forma para que essa pratica se torne mais efetiva dentro das escolas pois acredito que a meditação tem um poder transformador do ensino.

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