Organização interior

A organização interior que neutraliza a intervenção autoritária externa é de natureza prática. Por “organização interior prática” entenda-se o pensamento, a palavra e a ação tomada pelo SER, desencadeada no tempo e espaço que ele ocupa e que leva diretamente à sua própria realização como SER. Isso pode parecer redundante, como andar em círculos, mas o que ocorre é que estamos realmente inseridos na estrutura cíclica do universo, na existência, e tal estrutura não é apartada, ela é contínua entre si mesma e nós. Você poderia perguntar: “como posso, então,  praticar de forma a ser o que sou?”. Vamos ver isso melhor.

Há três formas de manifestação do ser nessa existência, que são o pensamento, a palavra e a ação. Neste estudo não vamos nos preocupar sobre qual estrutura subjetiva seria responsável ou não por cada manifestação dessas, pois o que importa mesmo é o que vai ser manifesto, o que vai ser depositado na estrutura do universo. Isso porque cada manifestação do ser deixa uma impressão, uma formatação na matriz existencial da realidade, e essa impressão deixada é exatamente o elemento que, ao mesmo tempo, molda a própria realidade na qual ele está inserido; assim, aquilo que é manifesto define também o próprio ser.

Por exemplo, imagine uma esfera de metal que está sobre uma imensa superfície elástica, tão grande que suas bordas não podem ser vistas.  Ocorre que a atração gravitacional faz com que a força peso da esfera produza uma deformação na superfície elástica ao seu redor, de forma que uma depressão aparecerá na estrutura elástica que circunda a esfera, certo? Dizemos que a matriz material existencial dessa esfera sofre uma impressão, uma deformação devido simplesmente à ação da força peso dessa esfera. Assim, se um outro corpo vier deslizando pela cama, uma outra esfera menor por exemplo, esse corpo tende a cair na depressão e ir de encontro à esfera de metal. Ou, caso nossa esfera começe a se mover, ela se moverá sempre através de tal deformação ao longo da superfície elástica. Por onde ela passar ela deixará sua marca. Ou seja, a trajetória manifestada por esse corpo marca e é marcada pela matriz existencial que o sustenta. Essa marca, obviamente, pode ser alterada caso a massa ou o raio da esfera mudem, por exemplo. Mas ela estará sempre, ao mesmo tempo, se manifestando na estrutura através do seu peso e recebendo diretamente as consequências da sua manifestação através da plasticidade da superfície elástica. Trata-se de uma relação cíclica e recíproca, automática e inseparável.

Imagine agora que você é essa esfera, e que essa superfície elástica, essa matriz existencial que te acolhe seja o Universo, isto é, o tempo-espaço que te envolve. Da mesma forma, você não pode ver seus limites. Da mesma forma, assim como o peso e o raio da esfera definem a deformação da superfície, seus pensamentos, palavras e ações provocam ininterruptas deformações na estrutura do Universo. Assim, toda atividade da mente, da fala e do corpo moldam a sua própria realidade matricial. Às vezes, algo vem deslizando em sua direção devido à profundidade de sua matriz moldada pelo peso de um pensamento, palavra ou comportamento. Outras vezes, você é atraído por uma outra deformação na matriz do universo maior que seu próprio raio e vai em direção à ela. Aqui, o interessante é que nada é permanente; se você muda a forma de interação com essa estrutura, então a deformação, a trajetória, a resistividade e o caminho também mudam. É como se nossa esfera tivesse o poder de alterar seu raio e sua massa a todo momento.

Essa alteração, essa constante atualização da realidade inseparável a nós mesmos é o que chamo de “organização interior prática”. É a forma como moldamos nossa matriz existencial a partir da nossa própria manifestação. Se essa forma de manifestação não possui alinhamento e coerência entre o que pensamos, falamos e fazemos, vivemos em uma realidade confusa, desarticulada, sem autenticidade. Mas se manifestamos organização interna de tal forma que essa organização seja refletida na matriz existencial ao nosso redor, então podemos experimentar os efeitos daquilo que somos, ou seja, nossa própria essência redirecionada. É como olhar num espelho.

Felizmente, a essência dessa organização interior não é transferível, ou seja, você não pode pegar de ninguém. Nesse caso ainda existiria a autoridade externa a lhe ditar. Ao contrário, você deve apreender por si mesmo. E esse é um grande desafio. Mas quando você olha para dentro de si, então o simples fato de reconhecer como você funciona já é uma ação de organização interior. O simples fato de ver como interagimos com a realidade já é uma forma de organizar essa realidade.

Gustavo Mokusen.

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