Educação ou imitação?

A vida, essa realidade complexa, arriscada e exigente que se apresenta bem à nossa frente e que não pode ser resumida ou abreviada, é um chamado imperativo que clama pela mais plena atenção a ser dedicada em seu estudo, em sua investigação. Sim, a vida é uma exigência, uma ordem a ser atendida com suas demandas nada simples, com suas arestas, com suas dores e seus prazeres, com a totalidade das suas questões individuais e coletivas se comunicando de forma incessantemente dinâmica.

Nessa investigação uma questão importante se forma: como somos preparados para viver essa grande jornada, por vezes inquieta, outras vezes serena, mas sempre impermanente, esse conjunto de experiências viscerais chamada vida?

De início, bem na origem do pensamento juvenil, acreditamos muito em nossos títulos, em nossos diplomas, em nossas credenciais, em nosso status social como se fossem a garantia, o passaporte para uma região salva e segura dentro desse contexto absolutamente desafiador chamado de existência. Neste nível de pensamento, ainda superficial na questão formulada, é possível acreditar que essa formação, essa chamada boa educação seria uma forma de imunidade contra as possíveis ameaças e obstáculos que possamos nos deparar no caminho.

Entretanto, um olhar mais profundo para essa crença revela não somente suas inconsistências e limitações perante a diversidade e a complexidade que se apresentam continuamente em nossos problemas reais, mas também coloca em xeque a estrutura dessa “educação” social, escolar e comportamental.

Uma investigação detalhada revela que essa educação se baseia, de fato, na maior parte do tempo, no processo de imitação, ou seja, na reprodução de comportamento, conhecimento e crenças. O que se transmite nesse processo é, basicamente, o movimento de repetição. Isso começa bem cedo na criança, logo na formação do ponto nevrálgico que irá contornar todas as futuras possibilidades de relacionamento com o mundo e com os outros: a formação da linguagem. Através de um processo intensamente repetitivo em sua base – e naturalmente necessário – a linguagem é assim transmitida e consolidada. Não somente a linguagem, mas também o comportamento associado a ela é reproduzido, repassado e confirmado culturalmente. Ou seja, a motricidade corporal e a linguagem verbal e escrita começam a criar referências internas e externas no sujeito, uma referência baseada na imitação e na repetição, na maior parte do tempo.

Com a linguagem consolidada vai-se acumulando então conhecimento, informação. Mas esse conhecimento, ou pelo menos a maior parte dele, é também repassado de forma repetitiva nos bancos escolares. Uma educação escolar normal se baseia no acumulo de informações intelectuais repassadas sem muita investigação, sem muito tempo para construção de experiências vivenciais. Essas informações técnicas são usadas na montagem de situações problemas ideais e na averiguação de respostas dadas a eles.

Além dos bancos escolares, recebemos também uma educação social e cultural que, da mesma forma, se baseia na reprodução de comportamentos. O ponto crucial aqui é: se eu não repito ou reproduzo, então a possibilidade de não ser aceito no grupo é grande. Ou seja, frente ao risco grave de ser repudiado ou incompreendido, o “ajuste” é o mecanismo preponderante.

Toda essa natureza geral do processo de educação coloca o homem civilizado com uma inclinação profunda para a imitação, para a repetição, para o condicionamento.

Estamos apenas reconhecendo a natureza da nossa educação, isto é, não estamos neste momento preocupados em condená-la a ponto de revogá-la, mesmo porque para fazer isso deveríamos recolocar algo em seu lugar. Mas esse reconhecimento traz uma constatação importante: o da validade limitada, muito limitada, de nosso comportamento imitativo frente às demandas reais e complexas que encontramos em nossa existência.

Creio que nessa investigação uma coisa muito importante a se fazer é manter a seguinte pergunta: como, frente às demandas complexas, desafiadoras, diversas e cada vez mais crescentes que a vida nos apresenta, podemos transpor desse modelo repetitivo e imitativo para uma postura mais autêntica, menos condicionada e mais livre?

Gustavo Mokusen.

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