Azul do céu

Nesses dias de inverno o céu fica quase sempre muito azul e com muito poucas nuvens. Eu gosto muito de olhar para o céu em dias como esses.

É interessante, pois quando você olha para o céu azul e sem nuvens, não há qualquer ponto para se fixar a atenção em especial. Há somente o azul, azul profundo em todas as direções, sem limites, sem margens, sem forma. Se estiver perto de uma janela, dê uma olhadinha e detenha seus olhos por alguns instantes em alguma porção limpa de céu, sem nuvens ou outra coisa qualquer. Relaxe seu olhar, apenas observe. Não é algo profundamente majestoso essa contemplação?

Onde começa esse azul, onde ele termina, qual sua extensão, seu tamanho? Perguntas como essa podem aparecer em sua mente. O pensamento analítico não aceita a experiência pura, direta, sem identidade, e por isso ele necessita de formular tais perguntas de conformação. Mas, por alguns instantes, apenas contemple o céu, não dê atenção à sua mente racional. Por agora, apenas constate que esse azul nem começa e nem termina, não é raso, profundo, pequeno ou grande, é apenas azul, apenas essa experiência da sua contemplação. Não dê nem mesmo outro nome ou conceito a ele, por enquanto vamos apenas chama-lo de “azul” porque precisamos nos comunicar sobre o foco do nosso exercício.

Se você mantiver sua atenção e seu foco dessa maneira, você estará vivenciando a contemplação sem identificação. Não há nada que possa ser identificado nesse azul, nenhuma forma, nenhum objeto, nenhum limite, nenhum contorno. Não há nada que o pensamento possa capturar e se apropriar com uma identificação de “meu”, “seu”, “isso”, “aquilo”. Apenas azul, nada mais, nada menos.

Agora, tire da sua contemplação até mesmo a palavra “azul”. Apenas mantenha seus olhos contemplando essa imensa coisa ilimitada, brilhante e vasta. Não chame isso de nada, não atribua a isso nenhuma característica. Apenas contemple.

Se você realmente se entregar a esse exercício, apenas observar com total presença isso que se manifesta à sua frente, sem buscar ali respostas, definições, entendimento, lucro, prazer ou outra coisa qualquer, então você estará experienciando nada mais nada menos do que sua natureza ilimitada, seu princípio fundamental, sua liberdade autêntica, sua mente desobstruída. Nessa contemplação, no seio dessa experiência não há qualquer identificação, não há nenhum movimento do pensamento identificado com a própria experiência ocorre, portanto não há nem mesmo nenhum limite interior chamado “eu” a experienciar tudo isso; em última análise, há apenas a experiência pura, direta. É como se não houvesse mais o olho separado daquele céu: há apenas a experiência direta desse “azul”.

O “eu”, fruto de nossas identificações com coisas, pessoas, condições, títulos, posses, etc., simplesmente não pode interferir mais nesse nível de consciência. É isso é assim porque nesse estado de contemplação não criamos limites através do pensamento ou da linguagem. Então, mesmo que apenas por alguns instantes, podemos experimentar essa incrível sensação de liberdade, de alívio, como se um imenso fardo fosse retirado de nossos ombros – o fardo de manter todo esse limite chamado “eu” funcionando, se defendendo, articulando, conquistando, lutando, fugindo e, principalmente, sofrendo. Todo esse movimento do pensamento chamado de “eu”, que é um conjunto de identificações psicológicas, simplesmente cessa e se entrega à experiência da contemplação profunda do “azul”. Nesse estado de consciência, mesmo que por alguns milissegundos, podemos constatar a extinção do sofrimento psicológico.

Olhar para o céu azul desse jeito é uma forma de entrar em contato direto com o real, com a experiência em si, com esse momento e esse espaço que ocupamos neste ponto da existência. Se é possível realizar isso por um segundo que seja, mesmo que por um breve instante, então está constatado, está verificado e não é mais necessário acreditar, esperar ou temer. É como um enorme e grande salto dado, irreversível, que muda radicalmente o estado do ser; não há como negar, como voltar atrás, o princípio foi conhecido, foi visto, e ele é insubornável, incorruptível, inapropriável, irrevogável, imperturbável; a liberdade não identificada, não limitada é a base original de toda existência.

Gustavo Mokusen.

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