Um gás mental chamado sofrimento

Outro dia ouvi um comentário interessante: que o sofrimento se comporta como um gás, ocupando todo o espaço disponível para ele e tomando a forma do recipiente que o contém. Achei essa analogia fantástica.

Sim, o sofrimento se comporta como um gás. Como tal, sua forma e seu volume são exatamente as do seu receptáculo. Isso explica, entre outros fenômenos, porque um mesmo fato provoca diferentes sensações de sofrimento nas diferentes pessoas. Por exemplo, alguém critica o João. Para ele essa crítica será uma dor de cabeça que dura uma semana, um mês inteiro, e ele ficará ali paralisado no ressentimento e na mágoa de ter ouvido o que não queria, resistindo a se abrir e mudar se for o caso. Em outras palavras, sofrendo. Entretanto, a mesma crítica é feita ao Zé ali do lado. O Zé ouve, entende o que a pessoa queria lhe dizer, analisa o que é verdade e o que é exagero na crítica feita, reconhece e corrige o que está ao seu alcance mudar, esquece o resto e toca o barco pra frente. No lugar do sofrimento, trabalho, esforço e mudança na vida do Zé.

Qual a diferença entre João e o Zé? Dizemos que o espaço interno disponível ao sofrimento que um possui é maior do que o outro, no exemplo dado. Há muitos fatores que determinam esse volume disponível, e geralmente são aspectos complexos como história de vida e experiências anteriores, expectativas em relação ao futuro, desejos não realizados, traumas, inseguranças, etc. Resumindo tudo em uma palavra: ego. É muito interessante perceber que, quanto maior o autocentramento, maior é a capacidade de experimentar sofrimento. Quanto mais vamos além de nós mesmos, quanto mais transcendemos a noção egoísta, mais nos livramos das tormentas e do infortúnio.

Isso deve ser compreendido. Se você cria um enorme espaço destinado a esse ego, cheio de demandas egoístas, de caprichos, de vontades, de desejos autocentrados, você está criando também o tamanho do sofrimento, das decepções, das amarguras e das contrariedades que poderão ser experimentadas. As condições são tantas, as necessidades são em tal número que é simplesmente impossível atender a todas elas. O nível de aceitação das coisas como elas são, nesse tipo de postura, é muito baixo. Ao contrário, a tentativa desesperada de mudar todo o mundo à volta está sempre presente, uma tentativa de alcançar a qualquer custo uma satisfação pessoal egoísta confundida com felicidade. Essa busca está fadada, claro, ao insucesso. A satisfação pessoal confundida com felicidade, nesse contexto, é como uma anestesia cujo efeito passa rápido.

Partimos do pressuposto de que, se alterarmos o mundo, o cenário que nos cerca, de certa forma e com certa configuração que nos agrada (e assim o mantermos), então teremos felicidade. Mas este é um pressuposto falso, uma vez que é impossível manter alguma coisa sempre constante neste mundo de impermanência. Sendo assim, algo sempre sairá do controle.

Quanto mais se busca esse controle e essa satisfação, mais se experimenta sofrimento. Ou se sofre porque aquilo que produzia “felicidade” muda, ou porque não se consegue alcançar o que pensamos que produzirá satisfação.

Se fosse realmente possível alcançar tal estado sempre constante e pleno de satisfação, ele já não teria sido alcançado? Já não teria sido produzido? O que há de errado então?

Bom, essa pergunta cabe a cada um de nós respondermos. Mas uma valiosa observação: felicidade não é a mesma coisa que satisfação. Há pessoas que se mantêm felizes mesmo não possuindo todos os seus desejos egoístas satisfeitos. Há outras que, mesmo satisfazendo todos estes desejos, não conseguem experimentar alegria de viver.

Na Física sabemos que, quando aquecido, um gás expande ou aumenta sua pressão interna, ou ainda ambos. Isso ocorre porque ao aquecer damos energia cinética para suas moléculas. Na nossa analogia seria o mesmo que alimentar, cultivar, dar energia ao sofrimento – às nossas intenções autocentradas. Se você “esquentar” demais o ego a pressão interna aumentará, bem como o volume ocupado pelo sofrimento. Ao contrário, quanto menos você dá energia aos pensamentos e emoções autocentradas, menor o espaço disponível para sofrer, ou mais o sofrimento diminui de tamanho.

Voltemos ao gás (inflamável) chamado “sofrimento” e aos vazios criados para ele ocupar. É possível manter um equilíbrio e fazer as pazes com o mundo ao redor. É possível não estar inchado, inflamado, e aprender a fazer do sofrimento um gás rarefeito. É possível alterar o espaço interior que ocasionalmente é preenchido pelo sofrimento, você pode fazê-lo aumentar ou diminuir, e tudo isso por uma simples razão: ele só existe em sua mente, e por isso depende de como é manuseado.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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