A flor amarela do ipê

A velha questão entre “ser” e “ter” ganhou uma coloração diferente depois que encontrei uma carta que escrevi no ano de 2001, explicando a um amigo uma descoberta que tinha feito àquela época.

Nesse relato, e isso só percebi quando reli a carta hoje, o aspecto do “ter” diz respeito a uma característica muito sutil que eu chamaria de “sensação de posse primordial do ser humano“: os pensamentos que julgamos sermos donos. Antes mesmo de qualquer posse material, nosso processo de identificação e apego começa muito mais cedo em nossa própria mente. Já o aspecto do “ser” aparece na carta descrito como a nossa experiência direta no aqui e agora.

E para você, o que é mais importante: os pensamentos que você “tem” ou as experiências que os originam?

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Carta ao amigo Frederich L.

“… Houve um tempo em que eu acreditava firmemente naquilo que se chama de atividade mental como a base para toda a experiência no mundo.

A espécie humana está destinada a pensar, e o pensamento opera em cada um a partir de causas diferentes, de condições particulares. A atividade mental é comum ao se humano. Entretanto, a despeito da nossa capacidade de pensamento, muitas vezes surge confusão, conflito e  dificuldade de compreensão entre as pessoas. O motivo disso é que estamos num mesmo mundo em comum, dividindo juntos o mesmo tempo e espaço, mas cada um de nós crê firmemente em sua própria base operacional do pensamento a partir da qual o mundo é representado e descrito. Assim, o conflito de ideias e pontos de vista é uma consequência natural dessa atividade mental. A partir dessa constatação, decidi investigar mais profundamente o fenômeno do pensamento.

Além disso, a pergunta – ‘o que é o pensamento?’ – começa a tomar uma forma séria e mostrar que a direção de uma resposta madura e convincente deve passar por uma experiência plena e não somente por uma teoria dos sentidos.

O pensamento, aquela instância onde acontece a figuração da realidade, passou a ser por mim considerado como um processo que merece um acompanhamento minucioso da minha própria atenção, no sentido de ser mantido sob rigorosa e imparcial observação. Mostrou-se necessário, nessa espécie de pesquisa, não cair na armadilha  do  julgamento que causa discriminação e, assim, manter a imparcialidade para investigar o processo do pensamento, e ainda equilibrar e neutralizar o movimento do devaneio mental, que nos faz perder o foco mental do objeto de estudo. Tudo isso deu a essa tarefa um caráter de difícil execução.

Mas agora quero relatar o que ocorreu.

No início, confundi observação com controle. Ainda não era nítida para mim a diferença entre acompanhar e conduzir. O método que passei a usar era o de tentar controlar mentalmente as próprias funções da mente. Reprimir o que considerava nocivo; cercear o que julgava perigoso; reforçar o que fosse por mim tomado como benéfico. Estava, por assim, dizer, usando fogo contra fogo, mas o resultado disso foi que um incêndio se propagou através da inflamação do julgamento moral, o que só reforçou mais ainda a discriminação dualista entre bem e mal, entre certo e errado e todos os demais critérios que transformam o real em figuração abstrata. Claro que a partir dessa falta de habilidade nasceram situações de desconforto e de intensa contradição, mas isto foi essencial para dar mais um passo na investigação a que me propunha.

Foi quando, durante um retiro intensivo de meditação, desisti de controlar o pensamento (pelo cansaço e não por perspicácia) e, assim, algo aconteceu.

Simplesmente comecei a olhar mais para as árvores, em especial para os ipês.

O que me admirava neles era o fato esmagador de que, quando os contemplava, não podia pensar em outra coisa. Nem sei se era devido à cor amarela viva, ou por causa do formato disforme da árvore. Mas assim que meus olhos pousavam nos cachos amarelos, nenhum pensamento interferia naquele instante.

Não quero insinuar que não havia pensamentos ocorrendo em mim naquele instante. O fluxo mental estava lá, mas era como se houvesse me descolado deles. Pela primeira vez eu ocupava um espaço sutil não identificado com minha própria figuração mental.

Quando olhava os ipês, simplesmente os olhava.

Era um momento de descanso em minha mente.

Era um sentimento de alivio da complexidade mental a que havia submetido a mim mesmo.

Era como se estivesse lendo um livro sem palavras.

A partir desta época, o que aconteceu em mim foi irreversível e absolutamente consciente. Passei a ocupar esse espaço mais e mais vezes. Desde então tenho visto que as coisas que se manifestam, tudo aquilo que existe ao meu redor é anterior ao pensamento. Vi que a existência não precisa de nenhuma justificativa e é anterior à razão; a flor do ipê se abre, ela emerge diretamente da ação pura. O pensamento só ocorre dentro de nós, humanos.

Existimos não porque pensamos nisto ou porque assim o desejamos, mas porque algo que antecede o pensamento ou o desejo está presente.

A existência é anterior ao pensamento. Algo está presente antes, algo que sustenta o conhecedor e o objeto do conhecimento, algo que permite a experiência direta com as coisas, algo que abraça as coisas mesmas e a própria experiência das coisas.”

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