Kharma e Dharma

Não, este não é um post sobre uma dupla sertaneja, a despeito de seu título sugestivo. Hoje gostaria de explorar um pouco mais a relação que existe entre esses conceitos de origem na Índia antiga, Kharma (Kamma, “ação” em páli) e Dharma (Dhamma, “realidade” em páli). Vamos usar a grafia em português, carma e darma.

Já vimos que o carma pode ser compreendido como o mecanismo de causa e efeito que reina no universo. No contexto específico do caminho espiritual, significa o resultado das ações que tomamos. Dizemos que, sob efeito do carma cego, a pessoa vive sob a ilusão, jogada de lá para cá sob o efeito de forças que transcendem sua compreensão, e isso provoca mais e mais reação dentro de um ciclo vicioso. Em si mesmo, o carma não é nem bom ou ruim, pois é um mecanismo, uma lei natural. Porém, dizemos que a ignorância e o sofrimento encontram terreno fértil quando a causalidade dos fenômenos não é compreendida. Por exemplo, você não culparia a gravidade terrestre caso não conhecesse seus efeitos e pulasse de uma janela alta, você mesmo seria o único responsável por isso, e sua ignorância seria a razão do infortúnio. A ignorância gera carmas de sofrimento.

 O darma, por sua vez, é o fim da ilusão e da ignorância, é o conhecimento da realidade, ou seja, das causas e condições que atuam nos fenômenos. O darma é a iluminação, é todo ensinamento disponível, é tudo que está ao redor, todos os fenômenos, todas as possibilidades, tudo o que está neste momento debaixo dos seus pés. Por exemplo, a mesma pessoa que se machucou pulando da janela, adquirindo conhecimento suficiente, poderia utilizar a mesma lei gravitacional e colocar um satélite em órbita em torno da Terra. A ignorância gera sofrimento, mas cada sofrimento é uma possibilidade de transcendência. Um darma em potencial dentro do carma, isso não é interessante?

Sim, para cada carma que atua existe um darma relativo. Da mesma maneira que só há sombra quando há luz, qualquer carma de sofrimento traz também seu darma de iluminação, seu ensinamento inerente em sua própria raiz. Pois na raiz de toda aparente dualidade o que existe é a matriz universal, de onde partem todas as manifestações e fenômenos.

Calor e frio, luz e sombra, tristeza e felicidade, ignorância e iluminação, dor e prazer e quaisquer outros pares de opostos relativos só podem emergir mutuamente, porque a condição de existência de um é a existência do outro. Se você não conhecesse a tristeza, como poderia saber que está feliz?

Como Físico, eu gosto de usar exemplos de fenômenos naturais para fazer analogias ilustrativas. Existe um fenômeno na Física de partículas atômicas que se denomina criação ou aniquilação mútua. Neste processo, partículas são criadas e destruídas sempre aos pares, de forma que a energia inicial do universo nem cresce e nem diminui. Por exemplo, se uma partícula de carga elétrica positiva, um pósitron, é criada, também aparecerá a sua contraparte, o elétron, partícula negativa. Ambos emergem do vazio quântico no mesmo ponto do tempo e espaço, a partir de uma flutuação do campo energético matricial em que se encontram. Eles emergem até com movimentos simétricos contrários, geralmente espiralados em direções opostas. Se eles colidem um contra o outro, eles simplesmente se aniquilam e desaparecem, deixando apenas o rastro inverso da flutuação de energia inicial da qual brotaram. Isso acontece milhões de vezes por segundo no mundo das partículas, criação e destruição de pares. A observação desses fenômenos levou os cientistas a formularem a teoria da anti matéria, mas isso é outro assunto.

O que quero ilustrar é que o universo possui um mecanismo de conexão entre seus pares de opostos, aparentemente duais, que opera desde os níveis mais elementares da realidade física. A aparição e destruição são mutuamente condicionadas, e essa é uma bela pista quando investigamos a raiz do carma e darma. Voltando ao nosso ponto, podemos entender os dois como aspectos mutuamente complementares da mesma realidade, ou seja, em última análise carma é darma, darma é carma. A ação (carma) se dá no meio da realidade (darma), e a realidade nada mais é do que ação. E isso é exatamente o que mestre zen Dogen disse no século XIII: “Iluminação e ignorância são a mesma coisa”.

Assim, quando um carma de sofrimento se apresentar, não olhe para ele atravessado. Lembre-se do seu parceiro darma e procure aproveitar a oportunidade para investigar suas raízes, transmutando assim a ignorância na iluminação correspondente.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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