O Treinamento Zen – Parte III (final)

Extratos do Livro “Zen Training: Methods and Philosophy”, de Katsuki Sekida

“No Zen fala-se de “vazio”. O que significa isso? Talvez uma historia vá ajudar. O deus guardião queria ter um encontro com o mestre Tozan, mas viu que não podia, então ele inventou um truque. Ele pegou um pouco de arroz e trigo da cozinha do monastério e espalhou no jardim. No monastério, as coisas são tratadas com muito cuidado. Tozan achou o arroz e o trigo espalhados no chão e disse para si mesmo: “Quem poderia ter sido tão displicente para fazer isso?” Então naquele momento a deidade pôde dar uma olhada em Tozan. Usualmente Tozan não está em lugar nenhum, ou seja, sua mente está vazia . É por isso que a deidade não podia encontrá-lo. Tozan permitiu sua mente trabalhar quando ele viu os grãos espalhados no chão. Como uma nuvem que apareceu no vazio do céu; e logo se desvaneceu, mas naquele momento a deidade pode ter uma visão rápida dele.

Um estudante de Cristianismo, ouvindo que o Zen fala de vazio, ofereceu por comparação uma definição de santidade. Santidade, ele disse, significa plenitude, com nada para ser adicionado. A palavra santidade é encontrada no Budismo também. Buddha é santo. Mas no Budismo, quando um homem se torna um Buddha, supõe-se que ele seja capaz de esquecer que ele é um Buddha. Enquanto você tiver consciência de ser um Buddha, você não é um verdadeiro Buddha, porque você está ofuscado pela idéia de ser um Buddha. Você não está vazio. Toda vez que você pensa que está atingindo alguma coisa – tornando-se um Buddha, atingindo santidade, mesmo vazio – você deve jogar isso fora.

Vazio é uma condição em que a pressão mental interna é totalmente dissolvida. Quando um pensamento aparece em sua mente, é necessariamente acompanhada de pressão interna. Mesmo que você pense, “Está ótimo hoje”, uma certa pressão interna é gerada na sua mente, e você sente que você quer falar para alguém e diz, “Está ótimo hoje, não está?” fazendo isso você descarrega a pressão. Em textos Zen a palavra mushin aparece. Literalmente, isso significa “não mente” (mu, não; shin, mente), que significa “não ego”. Isso significa que a mente está num estado de equilíbrio. Nós pensamos a cada momento, e uma pressão interna é gerada, e nós perdemos o equilíbrio. E no Zen nós treinamos a nós mesmos para recuperar este equilíbrio a cada momento. O ego é construído por uma sucessão de pressões internas. Quando as pressões são dissolvidas, o ego se desvanece, e existe o verdadeiro vazio.

Há um tópico Zen, ou koan, que pergunta, “Qual o significado de Bodhidharma ter vindo à China?” E a resposta dada é “Nenhum significado”. Isto significa “nenhum propósito”. Bodhidharma passou três anos viajando para a China. Os sofrimentos da jornada são raramente concebidos por nós hoje, e ainda assim é dito que não havia nenhum propósito. O ponto chave é que “nenhum propósito” significa vazio. Quando Bodhidharma chegou à China, a primeira pessoa importante que ele encontrou foi o Imperador Wu de Liang. O Imperador Wu era chamado “Imperador Wu da Mente de Buddha”. Ele era um devoto fiel do Budismo. Ele construiu muitos templos, sustentou muitos monges, e mandou muitos estudantes para traduzir os sutras para o Chinês. Ele mesmo era profundamente versado em escrituras Budistas e punha um robe sagrado e dourado para dar aulas sobre os sutras. É dito que naquela ocasião flores cairam do céu e mudaram a terra em ouro. Pensava-se que isso era recompensa por grandes méritos. Entretanto, se Wu tivesse verdadeiro entendimento do vazio Budista, e se esse vazio tivesse sido realizado nele mesmo, as flores não teriam caido do céu e a terra não teria se transformado em ouro. O Imperador Wu disse para Bodhidharma, “Eu erigi templos e sustentei monges; que virtude advém disso?” Ele esperava que Bodhidharma respondesse, “Grande virtude!” A resposta de Bodhidharma, entretanto, foi “Nenhuma virtude”. O Imperador Wu talvez tenha percebido sua falha e fez um outra tentativa. Ele perguntou, “Qual é o primeiro princípio dos sagrados ensinamentos do Buddha?” Bodhidharma disse, “ Vazio, não santidade”.

Num famoso episódio Zen, Joshu perguntou a seu professor Nansen, “Qual é o caminho?” “Mente original é o caminho”, foi a resposta de Nansen. Mas como podemos atingir essa mente original? Nós poderíamos dizer, esvazie sua mente, e aí está a mente original. Mas isso é lançar mão de uma exortação, ou meramente uma explicação verbal do que o Zen aponta. O praticante Zen tem que realizar isso por ele mesmo, vivenciar os aspectos práticos do treinamento Zen em seu próprio corpo-mente.”

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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