O eu, a identificação e o sofrimento

Assim que vivenciamos em cheio algum sofrimento nessa existência, físico ou mental, iniciamos automaticamente uma busca para procurar parar de sofrer. A dor, no corpo ou na mente, produz imediatamente em nós a necessidade de encontrar alívio.

Isso ocorre porque o ser humano e outros animais obedecem ao comando ancestral: “evite a dor; busque prazer”.

É de se notar que qualquer perturbação que ocorra em nosso corpo orgânico é imediatamente percebida em nossa psique, em nossa mente, provocando uma imediata sensação de desconforto. De forma recíproca, um transtorno mental é sentido também por nosso organismo e seus órgãos frequentemente refletem tal anormalidade. Corpo e mente estão, assim, interligados.

Assim, o mecanismo que procura neutralizar o sofrimento com seu alívio é uma herança ancestral de sobrevivência. É esse mecanismo que, quando disparado pelo medo de sentir dor, funciona cegamente e justifica todas as formas de ações autocentradas.

Mas ocorre que o ser humano evoluiu sua consciência auto reflexiva e, ao contrário dos outros animais, pode agora compreender e descrever esse mecanismo, e até mesmo interferir nele, procurando caminhos mais eficientes na sua busca de equilíbrio e paz, como terapias, medicamentos, tratamentos, etc.

Um destes caminhos alternativos descobertos pelo homem, relativo ao sofrimento mental, diz respeito à transcendência do próprio mecanismo ancestral “evitar a dor/buscar prazer”, falando no âmbito subjetivo. Em outras palavras, ao invés de procurar eliminar o sofrimento em cada situação de desconforto que se apresenta – milhares, ao longo de uma vida – esse novo caminho proposto vai num ponto anterior da nossa herança e desarma o próprio mecanismo ancestral já instalado em nós, antes que ele comece a funcionar.

Historicamente, esse caminho foi denominado como “transcendência do eu”. Ou seja, basicamente ele se ocupa em ir além do próprio sentimento de sofrimento através da investigação profunda do que representa esse sofrimento psíquico em nós.

Em outras palavras, ao invés de buscar somente a extinção das causas de um desprazer a qualquer custo e substituí-las por outras que, em princípio, trariam conforto psicológico, esse caminho propõe ir além daquela porção sofredora chamada de “eu” com a qual nos identificamos.

O ponto chave deste caminho é que o “eu” forma-se a partir de um conjunto de identificações subjetivas do tipo “eu sou isso” ou “eu gosto disso”, e também através do oposto negativo como “eu não sou isso” ou “eu não gosto disso”. Qualquer circunstância que ameace esse esquema estrutural de identificações e coloque em xeque nossa identificação com esse “eu mesmo” é uma situação de sofrimento mental ou emocional em potencial. Porém, se conseguimos desarmar nossas identificações básicas e suas associações, temos a chance de ir além do próprio conceito de sofrimento – e desta fora nos libertar dele de forma mais profunda.

Dramaticamente falando, esse método não elimina aquilo que me traz desconforto, mas sim aquilo em mim que sofre (ou seja, a identificação com as causas que trazem desconforto).

Por exemplo, ao invés de sentir-me mal devido a uma crítica que recebi no trabalho, investigo o quê em mim está identificado com essa crítica e trato de ir além dessa identificação. Ou, num momento de apego, procuro ver como estou identificado com coisas e pessoas, pois essa é a medida do sofrimento que percebo na separação delas.

Quando estava no Japão em treinamento no mosteiro Tenryuji, um monge disse a outro que não parava de reclamar do calor: “esqueça você mesmo”. Ele não disse: “vamos a um lugar mais fresco”, ele foi direto no cerne da questão. Este foi um ensinamento curto e grosso sobre o estado de não-identificação.

Uma vez deixadas para trás as identificações subjetivas (emocionais, intelectuais, sensoriais, linguísticas, etc), o medo e o sofrimento mental são dissolvidos. Então, o mundo descortina-se como um imenso cenário absolutamente isento de dor psicológica, pois nada há que possa ser ameaçado no estado de não-identificação. Nada há para ser perdido, assim como nada há para ser ganho. Há apenas a maravilhosa experiência da existência em sua forma mais pura.

A transcendência do eu não significa alienação, suicídio ou negação da existência. É um estado mental livre das identificações pessoais e egoístas que geram sofrimento em nós mesmos e nas pessoas.

O vídeo abaixo do grande pensador indiano Krishnamurti aborda a questão exposta, através da investigação sobre a origem do “eu”.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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