O Treinamento Zen – Parte II

Extratos do Livro “Zen Training: Methods and Philosophy”, de Katsuki Sekida

“Nós já nos referimos ao estado de sem-sensação, no qual nós perdemos a percepção de nosso corpo. Subsequentemente, tranquilizando a atividade de nossa mente, um estado é atingido em que tempo, espaço e causação, que constituem a estrutura da consciência, caem fora. Nós chamamos esta condição de “corpo e mente caem fora”. Na atividade mental ordinária o córtex cerebral toma maior parte, mas neste estado, dificilmente permanece de todo ativo. “Corpo e mente caem fora” pode parecer nada, apenas uma condição de mera existência, mas esta mera existência é acompanhada de um extraordinário poder mental, que caracteriza uma condição de extremo estado de alerta, despertar.

Para quem não experimentou isto, esta descrição parece estranha, mas este estado realmente ocorre no samadhi. Neste momento, entretanto, não estamos conscientes disso, pois não há reflexo de atividade da consciência e desta forma é difícil descrever. Entretanto, se tentássemos descrevê-lo, seria uma extraordinária quietude mental. Nesta quietude, ou esvaziamento, a fonte de todos os tipos de atividade está latente. É este estado que nós chamamos pura existência.

Se você atingir este estado de pura existência, e depois voltar para o atual mundo da atividade mental, você vai ver que a existência em si parece transformada. Por causa da possibilidade desta transformação, a existência é dita “oculta em escuridão” para os olhos de quem não experimentou a pura existência. Quando amadurecida na prática do zazen, a existência é vista com seus próprios olhos. Ou, como é dito nos sutras, “O Tathagata vê a Natureza de Buddha com seus olhos nus”.

Entretanto, assim como a energia pode ser usada com diferentes propósitos, assim pode a verdadeira existência ser experimentada em relação com qualquer fase da vida – raiva, ódio, ou ciúme, tanto quanto amor e beleza. Atualmente, toda ação humana é realizada através do ego, que tem a função análoga a de um cano ou canal através do qual a energia é conduzida para diferentes usos. Poderíamos perguntar o que este ego é. Nós usualmente pensamos que o ego é um tipo de entidade constante, que não muda. Na verdade, entretanto, é uma simples sucessão de eventos físicos e mentais ou pressões, que aparecem momentaneamente e rapidamente passam adiante. Tanto quanto nossa mente opera subjetivamente, deve haver um sujeito que funciona como ego. Como normalmente não cessa a atividade subjetiva, normalmente não há um estado em que nós estejamos livres de um ego. A natureza deste ego pode mudar. Toda vez que nós conseguimos banir um ego inferior ou restrito – um pequeno ego – um outro ego com uma perspectiva mais ampla aparece em seu lugar, e eventualmente o que nós podemos chamar um “ego sem ego” surge. E quando você tiver adquirido um ego sem ego, não há ódio, nem ciúmes, nem temores; você experimenta um estado em que você vê tudo em seu verdadeiro aspecto. É um estado em que você não se agarra nem adere a nada. Não é que você não tem desejos, mas que enquanto desejando e aderindo às coisas você está ao mesmo tempo desapegado delas. O Sutra do Diamante diz “ sustentando-se em lugar nenhum, deixe a mente trabalhar”. Isto significa, “Não deixe sua mente ficar amarrada aos seus desejos, e deixe seu desejo ocorrer em sua mente”. A verdadeira liberdade é a liberdade que você tem de seus desejos.

Quando o praticante de Zen tiver experimentado uma vez a pura existência, ele atravessa uma completa mudança na sua visão de mundo. Mas infelizmente, assim como ele é um ser humano, ele não pode escapar da inevitabilidade de viver como indivíduo. Ele não pode deixar o mundo da diferenciação. E ele é, deste modo, colocado num novo dilema que ele não tinha encontrado antes. Inevitavelmente, isto transmite um certo conflito interno, que pode causar muita angústia. Lidar com isto ajuda o treinamento da mente que tem que ser empreendido para aprender agora, enquanto vivendo no mundo da diferenciação e evitando a discriminação. Nós temos que aprender agora a exercitar a mente do desapego enquanto trabalhando com o apego. Isto é chamado de treinamento após ter atingido a realização, que constitui-se uma parte essencial do Zen. Há uma frase no Zen, “Igualdade sem diferenciação é igualdade ruim; diferenciação sem igualdade é diferenciação ruim”. Esta é uma frase muito comum, mas o nível de entendimento a que se refere não é comum, desde que isto só é atingido num estado maduro de prática Zen.

O treinamento Zen continua sem fim. O ego inferior ou pequeno ego, que pensávamos haver eliminado, é encontrado novamente secretamente agarrado de volta à sua mente. O antigo, crônico hábito da consciência implantou impulsos destrutivos tão firmemente na mente do homem que nos perseguem perpetuamente, e é impossível para nós inibi-los antes de aparecerem. Entretanto, quanto mais treinarmos a nós mesmos, mais estaremos liberados do pequeno ego. Quando o pequeno ego aparece, não se preocupe com ele. Simplesmente ignore-o. Quando um pensamento ruim lhe atingir, reconheça honestamente, dizendo “Este e mais aquele pensamento ruim me ocorreu”, e depois jogue-o fora. No pensamento Zen diz-se, “A ocorrência de um pensamento ruim é uma doença; não continuá-lo é o remédio”.”

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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3 comentários em “O Treinamento Zen – Parte II”

  1. Caro Gustavo,

    Boa tarde!

    Há um mês +- um conhecido me indicou seu blog, pois eu buscava informações sobre meditação. Dede então acompanho-o e leio pelo menos uma vez por semana. Estou com uma duvida, ao meditar é necessário sentar na posição que chamam de lotus(tenho muita deificuldade de fazê-la)? Ou basta sentar? Devo encostar na parede?

    Obrigado!

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    1. Ola Rafael. A posição de lótus completo, embora seja a mais indicada por ser uma posição simétrica, não é obrigatória, sendo que você pode sentar também nas posições de meio lótus, birmanesa, seiza, em um banquinho de meditação ou até mesmo em uma cadeira. Em todas essas posições o mais importante é você manter a coluna ereta, sem tensões, e também sem encostar na parede ou na cadeira, uma vez que isso o levará ao sono ou divagação mental. Outro ponto muito importante é a respiraçao, que deve ser feita sempre pelo nariz e usando os músculos da região do baixo abdome. Com o tempo de prática, o corpo vai ganhando vigor e flexibilidade, sendo que é muito comum praticantes evoluirem até alcançarem a posição de lótus completo. Mas isso não deve ser um objetivo em si mesmo, ou seja, ocorre naturalmente com a prática correta. Um abraço,
      Gustavo.

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