Apego: cortar para libertar

Não posso deixar de comentar um pouco mais sobre o post Tocando o Vazio que foi ao ar dois dias atrás.

Talvez o momento mais trágico da história seja aquele em que Simon teve que escolher entre cortar ou não a corda que o ligava a Joe, sem saber ao certo qual seriam as consequências da decisão que iria tomar.

Você já se imaginou nessa situação? Guardadas as devidas proporções, posso dizer que esse dilema não está assim tão distante da nossa realidade. Você, muito provavelmente, já passou por essa mesma problemática: cortar ou não a corda? Claro que não estou me referindo a uma escalada, mas poderíamos extrapolar esse contexto e entender como funcionamos em relação a uma das nossas emoções: o apego.

Sim, vamos imaginar que a nossa corda a ser cortada seja o apego que desenvolvemos em nossas vidas. Diferente da corda da história de Simon, essa outra é invisível; no entanto, nos mantém presos da mesma forma às coisas, pessoas e outras condições às quais nos apegamos. Daí vamos tentando caminhar, seguir nossa direção, mas levando tudo amarrado na cintura, no tornozelo, até o momento em que não dá mais; claro, até o momento em que ficamos à beira de um abismo, de um colapso, de um conflito.

Faça um esforço e tente visualizar tudo o que se encaixa nessa situação em sua vida: um relacionamento, um posto de trabalho, um bem material, um ponto de vista ou qualquer outro aspecto pelo qual você se sinta apegado. Não confunda cuidado, manutenção e atenção com apego. Geralmente, uma atitude de cuidado é uma atitude que liberta e amadurece, enquanto que o apego aprisiona e faz morrer.

Agora tente se lembrar das situações em que esse apego lhe custou caro, lhe trouxe sofrimento ou mesmo fez os outros sofrerem. Uma briga, uma discussão, o rompimento com alguém que você amava ou mesmo uma doença que desenvolveu por não soltar e relaxar. O que aconteceria se você aprendesse a simplesmente cortar a corda do apego nesses momentos? Se você aprendesse a libertar-se, no momento certo, daquilo que está obstruindo seu caminho e dos demais?

Certamente sofreríamos menos, seríamos mais felizes, mais livres, e também provocaríamos menos sofrimento nas pessoas envolvidas em nossa história. Simplesmente por que o apego é uma ilusão, a ilusão da posse, a ilusão de ter, de controlar, de projetar o que já aconteceu no que ainda virá, de estabelecer nossa vontade pessoal como o primeiro plano em tudo. E como toda ilusão, a apego traz apenas sofrimento e frustração, pois vivemos em uma realidade que é regida por leis totalmente contrárias a ele: vivemos no seio da impermanência, da mutação, enfim, em um universo em que a mudança é a ordem. No fundo, nesse universo temos muito pouco controle sobre o cenário total, e quando nos rebelamos e não aceitamos esse fato começamos então uma guerra inglória contra a natureza das coisas, obstruindo muitas vezes o fluxo natural que deve ser seguido.

Mais uma vez, não confunda falta de cuidado com desapego. Cuidar é necessário, mas muitas vezes esse cuidar é justamente soltar e liberar. No momento em que Simon corta a corda, ele sabia que se não o fizesse os dois poderiam morrer no abismo, pois seria impossível segurar mais tempo aquele peso. Ele simplesmente não podia mais cuidar de Joe. Então tratou de cuidar de si mesmo após esgotar todas as possibilidades que se apresentavam. Essa atitude foi muito além do egoísmo, pois ele seria egoísta se insistisse em manter Joe sob o seu controle inútil. O que ele não imaginava, porém, é que cortando a corda ele daria a oportunidade a Joe de encontrar sua própria sobrevivência, sua forma de sair daquela enrascada, uma vez que naquela situação a solução de cada um era diferente da do outro. Simplesmente a natureza não iria permitir a mesma solução para ambos. E isso era maior que a vontade dos dois, ou seja, eles não iriam vencer a força da natureza.

É claro que houve um momento certo para se fazer isso. Lembre-se que Simon arrastou Joe montanha abaixo até onde pode. De novo, e sempre é bom lembrar, desapego não significa abandono. Significa perceber o momento em que estamos obstruindo o fluxo natural do universo. E isso não é muito fácil, diga-se de passagem, pois sempre contaminamos essa percepção com nossa expectativa de querer mais e mais. Mas é possível nos tornarmos mais e mais fluidos, livres, é possível adotar uma postura menos apegada em nosso caminho, e assim nossa visão será mais clara.

Cortar a corda não é algo muito agradável, para nós e para os outros. Muitas vezes, assim como Simon, não teremos uma certeza das consequências de nossas decisões, mas saberemos que é a hora de tomá-las. Se esse momento chegar, se o momento da liberação amadurecer de forma consciente, então é hora de seguir sua intuição. As dificuldades aparecerão, mas elas são degraus para uma elevação.

Do outro oposto, também não vamos sair cortando tudo em nome do desapego. Isso seria, no mínimo, inconsequência ou, ainda, fuga das dificuldades. Neste caso, saiba que a ilusão de fugir de um problema ou situação apenas lhe trará mais complicações, caso existam outros caminhos possíveis ainda não explorados ou esgotados.

A única coisa certa é: se você não cortar a corda no momento certo, o apego irá lhe puxar para o sofrimento ou você colocará em risco a felicidade de outras pessoas. Avalie, pondere e nunca duvide da sua intuição ou da sua força para superar dificuldades.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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2 opiniões sobre “Apego: cortar para libertar”

  1. Falta coragem para cortar a “corda”, apego…apego…Preciso silenciar meus medos e ouvir minha intuição. Gustavo este texto calou em minha alma. Obrigada. Um abraço, Andréa

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