O Treinamento Zen – Parte I

Extratos do Livro “Zen Training: Methods and Philosophy”, de Katsuki Sekida

“Para estudar Zen nós começamos com a prática. Porém, é verdade que Zen está relacionado ao problema da natureza da mente, então isto necessariamente inclui um elemento de especulação filosófica. Entretanto, enquanto os filósofos confiam-se principalmente na especulação e no raciocínio, no Zen nós nunca estamos separados de nossa prática pessoal, a qual nós trazemos junto com nosso corpo e mente. (…) No treinamento Zen procuramos também extinguir idéias de auto-centramento, ego individual, mas nós não fazemos isso pensando a respeito disso. É com nosso corpo e mente que nós de fato experimentamos o que nós chamamos “existência pura”.

A forma básica de prática Zen é chamada zazen ( meditacão sentada), e no zazen nós experimentamos o samadhi. Neste estado mental, a atividade da mente racional é interrompida e nós vamos além da noção de tempo, espaço e causação. O modo de existência através do qual isso aparece pode a princípio parecer nada mais que simplesmente ser, existir. Entretanto, se você realmente atinge este estado você vai achar isto uma coisa extraordinária. No extremo de haver negado tudo e de não ter nada mais para negar, nós atingimos um estado em que reina tranquilidade e um silêncio absoluto, banhados em uma luz pura e serena. Instrutores budistas chamam este estado de aniquilação, ou Nirvana. Mas não é um vácuo ou meramente nada. É completamente diferente, também, do estado de inconsciência de um paciente sob anestesia numa mesa de cirurgia. Há um definitivo estado de vígilia nessa experiência. É uma condição de existência que traz de volta o impressionante silêncio e tranquilidade que nós experimentamos no coração das montanhas.

Na vida diária, nossa consciência trabalha sem cessar para proteger e manter nossos interesses. Ela adquiriu o hábito do pensamento utilitário, olhando para as coisas no mundo como várias ferramentas – na frase de Heidegger, considerando-as “no contexto do equipamento”. Olha os objetos procurando como eles podem ser úteis. Nós chamamos esta atitude de forma habitual da consciência. Esta maneira de olhar as coisas é a origem da visão distorcida que o homem tem do mundo. E ele olha para si mesmo, também, no contexto de um equipamento, e não consegue ver sua própria verdadeira natureza. Esta maneira de tratar a si mesmo e ao mundo mostra uma maneira mecânica de pensar, que é a causa da maior parte do sofrimento do homem moderno, e que pode, sob algumas condições, levar ao desenvolvimento de doenças mentais. O Zen procura extinguir esta visão distorcida do mundo, e zazen é o método de se fazer isso.

Ao sair do samadhi pode ocorrer que alguém se torne completamente consciente de sua existência em sua forma pura, verdadeira; isto é, alguém experimentando a verdadeira existência. Esta experiência da verdadeira existência de um ser, associada à recuperação da pura consciência em samadhi, leva-nos ao reconhecimento da verdadeira existência no mundo externo também. A discussão destes tópicos inevitavelmente leva-nos a emaranhados epistemológicos, mas vamos prosseguir por enquanto, admitindo que esse reconhecimento da verdadeira existência é possível. Olhar a si mesmo e aos objetos do mundo externo no contexto da verdadeira existência é kenshô, ou realização. E isso tem sido atingido, desde que o Buddha o fez, por homens e mulheres de cada geração, que dão testemunho de que isso é possível.

Esta experiência, como temos dado ênfase, é atingida pelo treinamento do corpo e da mente. A razão vem depois e ilumina a experiência, e desse modo os dois veículos do círculo da cognição são completados.

Se alguém vai escalar os Alpes, esse alguém é provavelmente levado a fazer isso em primeira instância pela beleza das montanhas. Quando começa a escalar, entretanto, percebe que é uma questão de trabalhar ao longo de seu caminho pacientemente, passo a passo, progredindo com muito cuidado e atenção. Algum conhecimento da técnica de escalar montanhas será essencial. É o mesmo com o Zen. Nós fazemos isso à procura o significado da vida, ou na esperança de resolvermos o problema da nossa existência, mas uma vez que começamos, percebemos que temos que olhar para nossos pés, e nos voltamos para uma prática seguida de mais prática, treinamento seguido de mais treinamento. Isso tem que ser feito pacientemente e seriamente.

Na prática do zazen entramos no estado de samadhi, no qual, como dissemos, a atividade normal de nossa consciência é interrompida. Isto não é algo que vem facilmente até nós. O Principiante no Zen vai usualmente receber instruções para praticar contando suas respirações – isto é, contar suas expirações até dez, e depois começar novamente. O leitor (assumindo que seja inexperiente no Zen ) deveria tentar isto por si mesmo. Provavelmente você vai olhar para esta tarefa com algum descaso, pensando que você pode fazer isso sem nenhuma dificuldade, mas quando você começa logo vai encontrar que pensamentos vêm e vão na sua cabeça, talvez quando você estiver em torno de “cinco”ou “seis” a contagem se quebre. Neste momento ao voltar a si, você não consegue saber onde estava. Você tem que começar de novo, do um em diante. Como podemos prevenir nossos pensamentos de viajarem? Como podemos aprender a focalizar nossa atenção em apenas uma coisa? A resposta é que não podemos fazer isso apenas com nosso cérebro; o cérebro não pode controlar os pensamentos por si mesmo. O poder para controlar a atividade de nossa mente vem do corpo, e isso depende estritamente da postura e da respiração.

Em relação à postura, nós precisamos dizer somente que a tranquilidade do corpo engendra a tranquilidade da mente. A imobilidade é um primeiro ponto essencial. Tradicionalmente, e por boas razões, nós sentamos para praticar, porque (além de outras razões) é nesta posição que nós podemos manter nosso corpo quieto mas nossa mente alerta.

A imobilidade resulta numa diminição dos estímulos que alcançam o cérebro, até que eventualmente não há quase nenhum. Isto irá dar origem, no momento oportuno, a uma condição em que você cessa de estar consciente da posição do seu corpo. Isto não é um estado de entorpecimento, pois você pode mover seus membros e seu corpo, se você quiser. Mas se você mantiver seu corpo imóvel, ele não é percebido. Esta condição é chamada “sem-sensação”. Neste estado a atividade do córtex cerebral torna-se regularmente menor, e nós podemos chamar esta condição de preliminar à entrada no samadhi.

Nós continuamos a respirar, é claro, enquanto sentamos, e será mostrado mais adiante que nossa habilidade de concentrar nossa atenção, de permanecer acordado e por último de entrar no samadhi depende do nosso método de respirar. Mesmo aqueles que não praticaram zazen ainda, sabem que é possivel controlar a mente controlando a respiração. Respiração tranquila traz um estado de mente tranquilo. Se, quando você grita com raiva, você diminuir o ritmo de sua respiração e tranquilizar-se, você vai descobrir que pode controlar sua raiva. Formas especiais de respiração automaticamente aparecem em conexão com várias formas de atividade.

No zazen, nós respiramos quase inteiramente usando músculos abdominais e o diafragma. Os músculos do tórax são raramente utilizados. Se enchemos o baixo abdomem o diafragma é abaixado, a cavidade toráxica é alargada, e o ar entra nos pulmões. Quando os músculos abdominais se contraem, os órgãos do abdômem são empurrados para cima, o que forca o diafragma para cima, reduzindo o volume da cavidade toráxica e expelindo o ar dos pulmões. A lenta e profunda expiração que nós adotamos no zazen é produzida mantendo o diafragma contraido de forma que se oponha à ação dos músculos abdominais, que estão tentando empurrar o ar dos pulmões. Esta oposição gera um estado de tensão na musculatura abdominal, e a manutenção deste estado de tensão é de suprema importância na prática do zazen. Todas as outras partes do corpo estão sem movimento, e seus músculos estão relaxados ou num estado de tensão moderada e constante. Apenas os músculos abdominais estão ativos. Desta forma, esta atividade é uma parte vital do mecanismo através do qual a concentração e o estado de alerta do cérebro é mantido. Tradicionalmente, no Oriente, a parte baixa do abdomem ( chamada Tanden ) tem sido considerada como assento do poder espiritual humano. A postura correta do zazen garante que o peso do corpo esteja concentrado ali, produzindo uma forte tensão, e o método de respiração que é adotado reforça esta tensão.

O Ponto essencial que nós queremos mostrar no momento presente é que é a correta movimentação do baixo abdomem, enquanto sentamos e respiramos, que nos habilita a controlar a atividade de nossa mente. Postura e respiração são a chave para concentração, para acalmar a atividade da mente e para entrar em samadhi. Em síntese, nossa conclusão pode parecer forçada. O leitor deveria experimentar por si mesmo de acordo com o que indicamos aqui. Zen é uma questão de experiência pessoal. O estudante é chamado a não aceitar nenhuma verdade que ele não possa demonstrar por si mesmo, com seu próprio corpo e mente.”

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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