O espetáculo e a falsificação da realidade

Hoje recebi um interessante email em minha caixa de mensagens, que transcrevo abaixo em azul:

(…)

A gênese do pensamento contemporâneo sobre a questão do espetáculo tem suas raízes no pensador pós-marxista francês Guy Debord, que faleceu em 1994. O caráter contestatório da obra de Debord incita a todos, numa luta acirrada contra a perversão da vida moderna, que prefere a imagem e a representação ao realismo concreto e natural, a aparência ao ser, a ilusão à realidade, a imobilidade à atividade de pensar e reagir com dinamismo. Em sua obra há influência direta de Karl Marx e Sigmund Freud, dentre outros, sendo que seu livro mais famoso se chama “A sociedade do espetáculo“.O ponto de partida do livro é uma crítica ferina e radical a todo e qualquer tipo de imagem que leve o homem à passividade e à aceitação dos valores preestabelecidos pelo estilo de vida consumista. Para o filósofo, cineasta e ativista francês, a sociedade da época estava contaminada pelas imagens, as sombras do que efetivamente existe, onde se torna mais fácil ver e verificar a realidade no reino das imagens, e não no plano da própria realidade. Servindo-se de aforismos, no primeiro deles Debord afirma que “toda a vida das sociedades nas quais reinam as modernas condições de produção se apresenta como uma imensa acumulação de espetáculos. Tudo o que era vivido diretamente tornou-se uma representação“. Ou seja, pela mediação das imagens e mensagens dos meios de comunicação de massa, os indivíduos em sociedade abdicam da realidade dos acontecimentos da vida, nem sempre prazeirosos, e passam a viver num mundo movido pelas aparências e consumo permanente de fatos, notícias, produtos e mercadorias. Segundo o autor:

O espetáculo consiste na multiplicação de ícones e imagens, principalmente através dos meios de comunicação de massa, mas também dos rituais políticos, religiosos e hábitos de consumo, de tudo aquilo que falta à vida real do homem comum: celebridades, atores, políticos, personalidades, gurus, mensagens publicitárias – tudo transmite uma sensação de permanente aventura, felicidade, grandiosidade e ousadia. O espetáculo é a aparência que confere integridade e sentido a uma sociedade esfacelada e dividida. É a forma mais elaborada de uma sociedade que desenvolveu ao extremo o ‘fetichismo da mercadoria’ (felicidade identificada ao consumo). Os meios de comunicação de massa são apenas ‘a manifestação superficial mais esmagadora da sociedade do espetáculo, que faz do indivíduo um ser infeliz, anônimo e solitário em meio à massa de consumidores’”.

Desta maneira, as relações entre as pessoas transformam-se em imagens e espetáculo. “O espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas, mediada por imagens“, argumenta Debord. O consumo e a imagem ocupam o lugar que antes era do diálogo pessoal através da TV e os outros meios de comunicação de massa, publicidades de automóveis, marcas etc. e produz o isolamento e a separação social entre os seres humanos.

(…)

O que me chama a atenção é a completa adequação e aplicação dessas ideias nos dias atuais, mais de 40 anos após serem apresentadas por Guy Debord. A alienação espetacularizada é cada vez mais presente em nossas vidas, e o que assusta é a normalidade com que se passou a consumir esses produtos. Seja um “Reality Show”, que de realidade não tem nada, absolutamente nada, mas que mesmo assim atinge picos de audiência, seja o vício desenfreado pelas chamadas “Redes Sociais”, que vinculam as pessoas mais pela imagem, status e outros aspectos superficiais do que pelas relações maduras e concretas, e que muito provavelmente têm também empobrecido essa realidade social relacional na medida em que se gasta muito mais tempo lidando com perfis virtuais na tela do computador do que conversando com alguém de verdade, de carne e osso.

As relações sociais mediadas por imagens vivem seus tempos máximos. O espetáculo se apresenta como nunca antes se viu, invadindo para vender a invasão de privacidade. Pense apenas nas últimas semanas e a enxurrada de matérias “espetaculares” empurradas goela abaixo pelos grandes veículos de comunicação, quase todas fruto de um sensacionalismo pobre e barato.

O culto ao externo, à imagem e ao superficial compete diretamente com o conteúdo, o interior, a essência. Dada a devida importância aos modernos meios de comunicação, poderíamos iniciar uma espécie de uso consciente deles, uma vez que tanto a alienação pelo excesso quanto a alienação pelo isolamento são ambas alienações. Poderíamos, neste sentido, entrar mais em contato com o real. Faça uma caminhada, vá a uma cachoeira, chame alguém para cozinhar e bater um papo.  Caso contrário, estaremos fadados a viver hipnotizados em meio a bolhas, a ilusões criadas pelo consumo voraz da imagem e do espetáculo, que sempre será uma falsificação da realidade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.  

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