A mente pacificada

Ontem conversei com um pesquisador sobre as religiões orientais, e em dado momento da conversa ele me perguntou:

– “O Zen Budismo lhe trouxe as respostas que você procurava?”

– “Não” – eu disse a ele.

– “Como não?”

– “A prática do Zen cortou fora as perguntas excessivas que eu tinha” – respondi.

De fato, essa é uma realização que a prática da meditação sentada e do treinamento Zen pode trazer: a dissolução das dúvidas mentais inúteis e a pacificação do pensamento discriminador exagerado. Isso não significa que você vai responder todas as perguntas que por acaso possa ter, ou que você não vai dar atenção às suas questões pessoais, mas sim que você vai aprender a se relacionar e fazer as pazes com elas.

De fato, uma mente que vive imersa nas dúvidas e na insegurança é uma mente intranquila. Vivemos em uma época onde o conhecimento intelectual é muito valorizado, e muitas vezes essa corrida por uma acumulação de informações acaba gerando terreno fértil para incertezas e ansiedades. Quando eu era um estudante de Física – e também nos anos seguintes quando atuei nessa área – pude perceber claramente o quanto o desenvolvimento desequilibrado da intelectualidade pode gerar um padrão de insatisfação mental. Vivi isso em minha própria experiência. Saber, acumular conhecimento teórico, mais saber, mais conhecimento desvinculado da prática, e tudo isso vai crescendo e, no fim das contas, terá que ser usado e justificado através da busca incessante de respostas para perguntas criadas, que nem sequer existiam. Claro, como temos grande sede e desejo teórico, acabamos criando muitas perguntas e dúvidas mentais. Algumas são questões que realmente se justificam e provocam nosso crescimento e desenvolvimento. Mas uma parte considerável delas não passa de especulação, de ruminação do pensamento, de conflito criado na abstração e na teorização em excesso.

Não quero insinuar que o conhecimento intelectual seja inútil, longe disso. Mas a informação acumulada sem conexão com a realidade pode sim provocar uma alienação individual. O exercício mental é válido, mas ele deve ser aplicado e pautado em nossa relação com a realidade. Sem exageros ou extremismos, devemos cultuar uma mente equilibrada entre o real e o abstrato, entre as ideias e os fatos.

Uma atividade mental balanceada é um dos aspectos que a prática da meditação traz. Diz-se que o excesso de dúvidas traz ansiedade. Na meditação não reprimimos e nem nos apegamos à nossa atividade mental, e por isso ela vai se equilibrando naturalmente. O excesso vai saindo naturalmente, a pressão interna de emoções vai se balanceando com a realidade. Assim, ao longo dos anos de prática vamos cultuando uma mente confiante, segura e tranquila, harmonizada com o corpo e com o momento presente.

Ter dúvidas é natural, pois é consequência da estrutura dualista do nosso pensamento comparativo e reflexivo. Sofrer e se apegar a elas é uma questão de escolha, de direcionamento do foco da atenção da mente. Com treinamento adequado é possível pacificar a mente e cortar fora o excesso de preocupação e ansiedade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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