Perspectivas, dificuldades e escolhas

De longe, uma montanha parece ser um lugar belo, fresco e tranquilo, e facilmente podemos nos imaginar subindo através de suas encostas e indo até o topo.

Entretanto, quando chegamos à sua base e começamos a escalada, vamos percebendo que o cenário é um pouco diferente daquele que imaginamos. As trilhas vão ficando cada vez mais íngremes, com inclinações que às vezes demandam esforço intenso. A vegetação dificulta a progressão. As escarpas afiadas das rochas cortam e arranham braços e pernas. O ar vai ficando rarefeito, e a respiração é ofegante. O vento sopra frio e, quanto mais subimos, mais sentimos a solidão das alturas e a incerteza sobre se estamos ou não na trilha certa…

Em meio a tudo isso, quando estamos vivenciando dificuldades e dúvidas, não é incomum surgirem pensamentos desanimadores, emoções fortes ou até mesmo o medo de continuar. E claro, a primeira ideia que se forma é: desistir, voltar, abandonar a escalada. Pensamos: “como pudemos ter sido tão ingênuos a ponto de não antever tudo isso?”.

De longe, a montanha era um poço de paz imóvel. De perto, escalando por ela, parece que estamos num inferno… Como pode ser assim?

A resposta para essa pergunta é que esse choque de percepções se dá devido ao nosso perspectivismo. Quantas vezes já não vivenciamos esse choque entre o que esperávamos e o que se apresenta em nossas vidas? Um trabalho novo, um empreendimento, uma viagem, uma relação afetiva ou qualquer outra expectativa que alimentamos baseada em nosso ponto de vista pode trazer muita frustração se não compreendemos o fenômeno do perspectivismo.

A questão é que projetamos nas coisas, pessoas e situações tudo aquilo que desejamos, que esperamos, que imaginamos a partir do nosso lugar, da nossa própria perspectiva. E a partir dessa ótica viciada em nós mesmos tomamos decisões que nos levam ao contato direto com a realidade das coisas que, antes, imaginávamos ser de outra forma. Assim, o choque é iminente.

Pode parecer óbvio que uma coisa é imaginar, a outra é vivenciar. Todos nós entendemos isso na cabeça. Mas quando estamos no meio da situação, não só na imaginação, mas também de corpo e alma, aí a coisa é diferente. Sentimos na pele as dificuldades, dúvidas e angústias que aparecem como fruto do conflito entre nossa perspectiva e a realidade como ela é, e todos estes sentimentos borbulhando nos induzem a tomar a decisão de desistir e voltar atrás.

Aqui, eu gostaria de explorar esse ponto com atenção. Inicialmente, esse “voltar atrás” é, mais uma vez, perspectivismo puro. Simplesmente tal lugar não existe mais; nunca voltamos ao mesmo lugar de origem, pois tudo está em constante mutação. É claro que você pode decidir por desistir de um caminho que começou, mas esqueça da ideia de retornar ao “como era antes”. Você mudou, as pessoas mudaram, o tempo passou e tudo já é diferente. Assim, se optar por desistir, saiba que um novo caminho se iniciará à sua frente, totalmente diferente do que era antes. No mínimo, algum tempo já terá passado.

Em segundo lugar, quero dizer algo sobre o desistir. Vou citar o ciclista Lance Armstrong, sobrevivente de um câncer e vencedor por 7 vezes do Tour de France, a prova mais famosa de ciclismo do mundo: “O sofrimento é passageiro, desistir é para sempre”.  Obviamente, podemos mudar a direção de um projeto, refazer a trajetória ou até mesmo decidir parar no momento certo. Aliás, saber parar no auge é uma arte, que o diga o Rei Pelé. Mas aqui o “desistir” refere-se ao “jogar a toalha” por causa das dificuldades que encontramos no caminho. As dificuldades sempre existirão, e se desistimos só por causa delas, então sempre iremos desistir em algum ponto crítico em qualquer coisa que fizermos. Você tem esse direito, mas lembre-se que é para sempre.

Então você tem muitas escolhas no caminho da montanha: direita, esquerda, voltar, parar, esperar… Mas, mesmo com as dificuldades e o desconforto, escolhe ir em frente, que é o curso natural do tempo e das coisas. Você prossegue, lembrando-se que “o sofrimento é passageiro”.

E então você chega ao topo da montanha.

Ar fresco renova os pulmões. As pernas trêmulas de cansaço, o suor na face, alguns arranhões, mas o espírito fortalecido e agradecido por não ter desistido. Por que simplesmente a visão que se estende à frente é avassaladora, é ainda maior do que você poderia ter imaginado quando viu a montanha de longe.

De cima, você pode ver a trilha pela qual subiu, e muitas outras ao redor, e agora entende todos os percalços que passou. A visão é panorâmica, abrangente. E então, como escreveu Fernando Pessoa, você cresceu com a experiência:

– “Pois sou do tamanho daquilo que vejo, e não do da minha altura”.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

(fotos da expedição Serra dos Órgãos – 2008)

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