Wu-ming e os pepinos – parte III

Abaixo a ultima parte do nosso texto sobre Wu-ming. Ainda, compartilho a notícia da publicação, no Diário Oficial DOU, da Lei n°12.623, que institui o Dia do Aniversário do Buda Shakyamuni e o inclui no Calendário Oficial de Datas e Eventos Brasileiro.

De acordo com a Lei, o aniversário do Buda Shakyamuni será comemorado no segundo domingo de maio e o governo brasileiro poderá apoiar eventos, visando à preservação da tradição religiosa e dos valores culturais.
Votos de Luz,
Gustavo Mokusen. 

” (…) Em três anos após a sua chegada, as estórias acerca do “Grande Bodhisattva do Monastério de Han-hsin” tinham feito seu caminho ao longo das províncias da China. Sabendo desta fama de Wu-ming, não fiquei inteiramente surpreso quando um mensageiro do Imperador apareceu solicitando a presença de Wu-ming no Palácio Imperial imediatamente. Através do Império os expoentes dos Três Ensinamentos (Buddhismo, Confucionismo e Taoísmo) estavam sendo convocados à capital, e lá o Imperador iria proclamar um deles como sendo a verdadeira religião a ser praticada e pregada em todas as terras sob seu domínio. A idéia de tal competição pelo favor Imperial não era de minha aprovação em absoluto e a possibilidade de que uma perseguição religiosa se seguisse a tal acontecimento preocupava-me grandemente. Mas uma ordem do Imperador não é para ser ignorada, portanto Wu-ming e eu partimos no dia seguinte.

Dentro do Grande Pavilhão estavam reunidos mais de cem monges e eruditos que preparavam-se para debater entre si. Eles estavam cercados pelos mais poderosos senhores da China, junto com inumeráveis conselheiros do Filho do Céu. Ao mesmo tempo trombetas ecoaram, címbalos bateram, e nuvens de incenso coleavam para o teto em todos os cantos. O Imperador, cercado por uma muralha de guardas, foi carregado até o trono. Após as formalidades devidas terem sido observadas o Imperador deu o sinal para o debate começar.

Muitas horas se passaram enquanto, um após outro, os sacerdotes e eruditos se aproximavam e apresentavam suas doutrinas e respondiam às questões. Em meio a tudo isso Wu-ming ficava lá sentado, obviamente contente enquanto se empanturrava com sua comida favorita. Quando sua provisão terminou, ele cruzou feliz as pernas, endireitou suas costas e fechou os olhos. Mas o barulho e a comoção eram muito grandes e, incapaz de dormir, ele foi ficando mais e mais inquieto e irritado a cada minuto. Enquanto eu massageava firmemente seu pescoço num esforço de relaxá-lo, o Imperador fez um gesto para que Wu-ming se aproximasse do Trono.

Quando Wu-ming ficou ante ele, o Imperador disse:

– “Ao longo das terras tu és considerado como um Bodhisattva cuja mente é como o próprio Grande Vazio, todavia ainda não proferiste uma palavra nesta assembléia. Portanto nós te dizemos agora, ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existentes sob o céu devem percorrer.”

Wu-ming nada disse. Após alguns momentos o Imperador, com uma nota de impaciência, falou novamente:

– “Talvez tu não ouviste bem, então repetirei mais uma vez! Ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existentes sob o céu devem percorrer!!”

Wu-ming continuou sem nada dizer, o silêncio ondulou por toda a multidão enquanto todos se tensionavam, atentos a observar o monge que ousava se comportar de uma forma tão atrevida ante a presença do Imperador.

Wu-ming não ouviu nada do que o Imperador tinha dito, nem mesmo percebeu a tensão que vibravam através do Salão. Tudo que o preocupava era seu desejo de encontrar um lugar tranqüilo onde pudesse dormir imperturbado. O Imperador falou de novo, sua voz tremendo de fúria, sua face distorcida em cólera:

– “Tu foste convocado a este conselho para falar em prol do ensinamento Budista. Teu desrespeito não mais será tolerado. Nós iremos inquirir-te uma vez mais, e se tu falhares em responder, nós asseguramos-te que as conseqüências serão extremamente graves! Ensinai-nos sobre o Grande Caminho através do qual todas as coisas existem sob o céu devem percorrer!”

Sem uma palavra Wu-ming virou-se e, com todos olhando em estupefata apreensão, percorreu o caminho ao longo do corredor e para a saída. Houve um silêncio de aturdida descrença antes da multidão irromper em um clamor de confusão. Alguns aplaudiam a brilhante demonstração de percepção espiritual de Wu-ming, outros explodiam em cólera indignada, lançando imprecações e ofensas em direção à porta pela qual ele tinha saído. Sem saber se devia agradecer Wu-ming ou mandar arrancar-lhe a cabeça, o Imperador voltou-se para seus conselheiros, mas eles não souberam o que dizer. Finalmente, olhando para a completa anarquia que o grande debate tinha se reduzido, o Imperador certamente percebeu que, não importando quais tinham sido as intenções de Wu-ming, havia agora um único caminho para evitar que o debate se tornasse o mais vexaminoso embaraço:

– “O grande sábio do Monastério Han-hsin demonstrou brilhantemente que o grande Tao não pode estar preso à doutrinas, mas é na verdade melhor exposto através de ações harmoniosas. Procuremos nos beneficiar com a sabedoria que ele tão compassivamente compartilhou, assim empenhando-nos em fazer nossos passos cada vez mais unos com o céu e a terra, conforme a natureza do profundo e sutil Caminho.” 

Tendo assim falado o Filho do Céu concluiu o Grande Debate. Eu imediatamente corri em busca de Wu-ming, mas ele tinha desaparecido nas ruas apinhadas de gente da capital. Dez anos se passaram desde então, e eu não soube mais nada sobre ele. Contudo, numa ocasião um monge itinerante fez uma parada em Han-hsin com algumas notícias. Soube-se que Wu-ming se tornou um andarilho pelo país nestes anos, tentando sem sucesso encontrar o caminho para seu lar. Devido à sua fama, ele é bem recebido e cuidado em todos os lugares com generoso carinho, e entretanto estes que buscam lhe ajudar em sua jornada acabam percebendo que na verdade ajudaram a si próprios.

Um jovem monge falou de um encontro em que Wu-ming perguntou-lhe:

– “Podeis me dizer onde é meu lar?” 

Confuso com o espírito da questão, o monge replicou:

– “O lar de que vós falais pode ser encontrado no mundo da impermanência do tempo e espaço, ou vós quereis saber do Lar Original da natureza Búddhica essencial?”

Após uma pausa para pensar na questão, Wu-ming olhou-o e, sorrindo como só ele é capaz, disse:

“Sim.”

FIM

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