Wu-ming e os pepinos – parte II

“Para meu surpreendente prazer, Wu-ming integrou-se à vida em Han-hsin como um pato à água. Sob minha sugestão ele foi designado para um trabalho na cozinha, conservando vegetais. E isto ele fez incansavelmente, e com alegre empenho ele juntava e misturava ingredientes, erguia pesados barris e, é claro, freqüentemente experimentava o resultado de seu trabalho culinário. Ele estava deliciado!Quando os monges reuniam-se no Zendo, eles invariavelmente encontravam Wu-ming já sentado em completa imobilidade, aparentemente em intenso e profundo Samadhi. Ninguém jamais podia adivinhar que a única coisa profunda acerca da atitude de Wu-ming em zazen era a grande improbabilidade com que ele podia usar a postura de meditação – pernas dobradas na posição do Lótus, costas eretas e centradas – como uma maneira maravilhosamente boa para desfrutar de longas horas de sono, que tanto gostava.

Dia após dia e mês a mês, enquanto os monges lutavam para superar as demandas físicas e mentais da vida monástica, Wu-ming, com um sorriso e assobiando, passava por tudo isso sem nenhum problema. Muito embora, verdade seja dita, a prática Zen de Wu-ming fosse sem o menor mérito, pela aparência ele era considerado por todos como um monge de grandes realizações e perfeita disciplina. Evidentemente eu poderia ter acabado com essa impressão muito facilmente, mas percebi que o tipo especial de magia que Wu-ming possuía estava surtindo efeito e eu não jogaria fora esta tão absurda e rica dádiva.

Por sua vez os vários monges demonstravam arroubos de ciúme, perplexidade, hostilidade, humildade ou inspiração pelo que eles presumiam ser a grande realização de Wu-ming. É claro que jamais ocorreu a Wu-ming que o comportamento seu ou de outro qualquer atrairia tais julgamentos, porque estes eram resultado de uma natureza sofisticada de comparação que estava além do alcance de sua mente. Na verdade, tudo acerca dele era tão óbvio e simples que os outros o consideravam assustadoramente sutil.

A presença inescrutável de Wu-ming tinha um efeito tremendamente perturbador nas vidas dos monges, mas cortava a teia de racionalizações que tão freqüentemente acompanha tais transtornos. Sua obviedade tão intensa lhe deixava incompreensível e imune às pretensão sociais de outros. Tentativas de lisonjas e injúrias encontravam igualmente o mesmo sorriso de incompreensão, um sorriso que o monges reputavam ser a própria lâmina afiada da espada da Perfeita Sabedoria. 

Não encontrando alívio ou diversão nestas atitudes, os monges eram forçados a procurar a fonte e resolução de sua frustração ante Wu-ming em suas próprias mentes. Mais importante – e absurdo – ainda, Wu-ming provocava o surgimento entre os monges de uma inconquistável determinação em penetrar completamente no ensinamento “O Grande Caminho é sem dificuldades” que eles sentiam que ele encarnava.Através do curso de minha vida tendo encontrado muitos dos mais veneráveis progenitores dos ensinamentos do Tathagata, jamais eu encontrei alguém tão capaz de levar outros a despertar suas naturezas Búddhicas intrínsecas como este tolo maravilhoso chamado Wu-ming. Suas espirituosas tolices eram como centelhas, acendendo a chama da luminosa sabedoria nas mentes daqueles que ousavam lhe desafiar para um diálogo.

Certa vez um monge aproximou-se de Wu-ming e perguntou-lhe fervorosamente:

– “Em todo o Universo, o que é o mais maravilhoso?”

Sem hesitação Wu-ming balançou um pepino ante a face do monge e exclamou:

– “Não há nada mais maravilhoso do que isto!!!”

Ao quê o monge chocou-se com os limites do dualismo sujeito-objeto:

– “O Universo inteiro é como um pepino em conserva; um pepino em conserva é como todo o Universo!”

Wu-ming simplesmente riu e disse:

– “Pare de dizer besteiras. Um pepino é um pepino; o Universo inteiro é o Universo inteiro. O que poderia ser mais óbvio?”

O monge, penetrando na perfeita manifestação fenomenal da Verdade Absoluta, bateu as mãos e riu, dizendo:

– “Ao longo do infinito espaço, tudo está deliciosamente picante!”

Em outra ocasião um monge perguntou a Wu-ming:

– “O Terceiro Patriarca disse, ‘o Grande Caminho é sem dificuldades, simplesmente deixe de ter preferências’. Como podes então deliciar-te em comer pepinos, e todavia recusas a experimentar mesmo uma migalha de cenoura?”

Wu-ming disse: “Eu adoro pepinos; e odeio cenouras!!”

O monge pulou para trás como se atingido por um raio. Então, rindo e chorando e dançando em torno ele exclamou:

– “Gostar de pepinos e detestar cenouras não é difícil, simplesmente deixe de preferir o Grande Caminho!!!” (…)”

… Continua no próximo post…

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