Wu-ming e os pepinos

Prezados leitores do ALD;

abaixo transcrevo a primeira parte de um interessantíssimo e raro texto budista, que será dividio nos próximos 3 posts devido ao seu tamanho. Trata-se de um relato que extrapola o contexto monástico no qual foi descrito, quebrando barreiras e conceitos intelectuais e unindo o ordinário ao extraordinário, o comum ao sagrado, a ignorância à iluminação, revelando que muitas vezes os propósitos da vida vão além da nossa pequena construção racional. Aliás, muito da história poderia ser aplicado em qualquer lugar comum dos nossos atuais.  Espero que apreciem.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen. 

WU – MING E OS PEPINOS

Compilado pelo Mestre Tung-Wang, Abade do Monastério Han-hsin no período do Décimo Terceiro ano do Dragão da Terra (898 d.C.).

“Meu caro amigo, o mais reverendo mestre Tung-Wang,

Velho e doente, aqui eu me prostro sabendo que escrever esta carta será o meu último ato nesta terra e que no momento em que vós lestes estas palavras eu já terei partido desta vida.

Embora nós não nos encontremos pessoalmente já há muitos anos desde que estudávamos juntos sob os auspícios de nosso mais venerável mestre, eu freqüentemente penso em vós, o seu mais valoroso sucessor. Monges através da China dizem que vós sois um verdadeiro leão do Dharma de Buddha; um leão cujos olhos são como estrelas brilhantes, cujas mãos agarram os raios, e cuja voz soa como o trovão. É dito que vossa mais leve ação sacode o céu e a terra e faz com que os elefantes e dragões da delusão fujam desesperados. Soube que vosso Monastério é inigualável em severidade, e que sob vossa correta orientação centenas de monges esforçam-se no treinamento com intenso zelo e vigor. Eu também soube que no campo de encontrar um sucessor esclarecido vossa sorte não tem sido boa. O que me leva ao objetivo desta missiva.

Eu rogo que vós agora presteis atenção ao jovem que carregava esta nota. Enquanto ele espera à vossa frente, sem dúvida sorrindo estupidamente ao mesmo tempo em que se empanturra de pepinos em conserva, vós podeis estar imaginando se ele não é um completo tolo como de fato aparenta, e se assim for, o que me levou a enviá-lo a vós. Em resposta à primeira questão, eu vos asseguro que a tolice de Wu-Ming é ainda mais completa que sua mera aparência poderia levar-vos a crer. E quanto à segunda questão, eu apenas posso dizer que a despeito de tal situação absurda, ou talvez por causa dela, ou ainda mais corretamente, a despeito e por causa dela, Wu-Ming, talvez inadvertida e acidentalmente, demonstra encarnar em si a função de um grande Bodhisattva. Creio que ele poderá ser-vos útil.

Permitais para ele dezesseis horas de sono diariamente e o mantenhais provido de grande número de pepinos em conserva e Wu-Ming sempre estará feliz. Não esperais nada dele e vós estareis sempre feliz.

Respeitosamente,

Chin-Mang”

Após os funerais de Chin-mang, os ajudantes de seu templo organizaram a viagem de Wu-ming para o Monastério Han-hsin, onde eu residia então, como agora, na qualidade de Abade. Um monge encontrou Wu-ming nos portões do Monastério, e vendo a carta com o meu nome espetada em seu manto, o dirigiu aos meus aposentos.

Normalmente, quando primeiramente se apresenta ao Abade, um monge recentemente chegado ao Monastério deveria prostrar-se três vezes e pedir respeitosamente para ser aceito como estudante. Não admira eu ter sido tomado de surpresa quando Wu-ming caminhou para o quarto, pegou um pepino da jarra de conserva sob seu braço, enfiou-o todo na boca e, alegremente mascando-o ruidosamente abriu um largo e imbecil sorriso que um dia seria considerado lendário. Olhando casualmente em torno do quarto, estalou os lábios e disse:

– “Quando comemos?”

Após ler a carta do estimado Chin-mang, eu chamei o monge-chefe e lhe pedi para mostrar ao meu novo estudante os dormitórios dos monges. Quando eles se foram eu refleti sobre as palavras de Chin-mang. Han-hsin era realmente o mais severo lugar de prática: os invernos eram cruelmente frios e nos verões o sol fulgurava. Os monges dormiam não mais do que três horas cada noite e comiam apenas uma frugal refeição por dia. Pelo resto do dia eles trabalhavam duro em torno do Monastério e praticavam muito o zazen no salão de meditação. Mas, realmente, Chin-mang tinha corretamente ouvido e entre todos os meus discípulos não havia um único a quem eu confiantemente poderia considerar um digno merecedor de receber a intransmissível transmissão do Dharma. Eu começava a desesperar, e sentia que seria incapaz de evitar, devido a falta de um sucessor, falhar em cumprir minha obrigação de manter a continuação da linhagem do Dharma de meu professor.

Dificilmente os monges poderiam ser acusados de falhar por complacência ou indolência. Suas sinceras aspirações de esforços disciplinados eram na verdade admiráveis, e muitos tinham logrado grande claridade de conhecimento. Mas eles eram preocupados em mostrar sua capacidade em suportar duras disciplinas e eram orgulhosos de suas descobertas intelectuais. Eles disputavam entre si por posições de prestígio e poder e rivalizavam entre si por reconhecimento. Ciúmes, rivalidades e ambição pareciam pairar como uma negra nuvem sobre o Monastério Han-hsin, sugando até mesmo os mais sábios e sinceros para a sua obscura bruma. Segurando a carta de Chin-mang ante mim, eu esperei e rezei para que este Wu-ming, este “Bodhisattva acidental” possa ser o fermento que minha receita tão sofregamente necessitava. (…)”

 … continua no próximo post.

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