Problemas que não existem

Uma das frases mais úteis que já ouvi veio de um amigo que é matemático: “só resolvo problemas que existem, porque os que não existem não têm solução”.

Isso pode parecer até engraçado ou irônico, ainda mais vindo de um matemático que passa horas e horas por dia debruçado em problemas puramente abstratos – muitos dele que, a princípio, não existem no campo da realidade concreta. Mas esse meu amigo estava se referindo aos problemas da vida real, e não às equações diferenciais com as quais ele trabalha.

Você pode até dizer “claro, não faz nenhum sentido mesmo perder energia com um problema que não existe”. Mas, por incrível que pareça, dedicamos boa parte do nosso precioso tempo de existência preocupados com problemas fantasmas, ou que não existem ainda ou que já passaram e, de uma forma ou de outra, não podem ser solucionados neste momento. Nos dois casos, esses “problemas” não são reais. São ficções do pensamento, mas como a ficção e a dramaturgia do tipo “e se…” seduzem nosso intelecto em torno de discussões teóricas, encontramos certo prazer nesse tipo de exercício mental. Mas, a rigor, é um exercício inútil que fica apenas no campo do imaginário e não gera uma ação concreta.Basicamente, esse hábito de se preocupar com problemas imaginários é, ele mesmo, causador de outros problemas – estes sim, reais. Facilmente podemos cair na discussão com outras pessoas em nome da defesa de pontos de vistas sobre situações hipotéticas. Ou então, começamos a projetar na realidade o objeto da nossa preocupação. Por exemplo, você chega ao trabalho de manhã e fica imaginando como sofreria se fosse despedido ou se perdesse o cargo que ocupa. Você começa a criar medos, começa a bolar uma estratégia mental para evitar a suposta demissão, você começa a se fechar, a desconfiar quando vê pessoas conversando em tom de voz baixa porque isso, claro, significa a conspiração contra você. Lentamente, quase sem perceber, você vai vestindo a imaginação como se ela fosse real, e isso vai afetar sua realidade na proporção direta da energia mental colocada nesse foco – um foco no problema que não existe.

Tem um caso famoso, quase uma piada sobre este ponto. Um homem está viajando com seu carro importado e passa por um vilarejo muito pequeno, já anoitecendo. Então seu pneu fura, mas ele não tem o macaco do carro no porta malas. Alguém lhe diz: “óia, moço, tem um senhor que mora lá naquela casinha na montanha, e ele tem esse troço aí”. O homem então vai andando até o local. No caminho da montanha, começa a pensar: “puxa vida, já é quase noite e esse povo dorme cedo. Esse senhor não vai gostar nada de ser incomodado. E será mesmo que alguém que mora numa montanha tem um macaco?”. Então o homem vai caminhando e seus pensamentos vão crescendo: “Realmente ele não vai gostar de ser incomodado. E além disso, vai me xingar por eu não ter trazido o meu macaco. É realmente isso não vai dar nada certo. Ele não vai gostar. E ele ainda vai me cobrar uma nota pra me emprestar.”

O homem vai andando e pensando cada vez mais nos seus novos “problemas”. Começa a se preparar: “Quer saber, eu vou apelar se ele for grosso comigo. E não vou pagar mais do que 20 reais. Quer saber, só pago 10 reais. Onde já se viu, um capiau que mora no mato me fazer de bobo? Deixa comigo.”

Então ele chega à casinha, bate na porta. Uma luz se acende e sai um homem:

– “Pois não?”

– “Olha aqui, se você acha que pode me xingar só porque eu esqueci meu macaco, vai tirando seu cavalinho da chuva. E não pago mais que 5 reais para usar esse macaco velho que você deve ter ai, não, na verdade eu não dependo da sua má vontade, na verdade eu não preciso da sua ajuda, pega esse macaco e vai enganar outro trouxa, falou? Passar bem!”

– (… ??????)

Moral da história: se você alimentar fantasmas, eles podem te assombrar.

Não vale a pena se ocupar daquilo que não existe. Guarde sua energia e seu tempo com as coisas que realmente esperam uma solução, com os problemas reais que se apresentam. Mesmo assim, não mantenha seu foco muito neles, pois assim não sobra espaço para focar as soluções. Procure, sim, pelas formas mais viáveis de resolvê-los.

A preocupação é inútil. Lembro-me de mais um ditado zen: “se não tem solução, prá quê se preocupar? Se tem solução, prá quê se preocupar?“.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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