Criatividade e algo mais…

Tem dias (como hoje) que me sento em frente ao computador, a página em branco do Word com o cursor piscando na primeira linha e uma leve sensação de não ter muito para escrever. Na verdade, ao contrário do que muitos possam pensar, esse momento de vazio, essa sensação de aparente falta de criatividade é fantástica, pois é a partir dela que pode surgir qualquer coisa, ou seja, tudo o que pode ser criado tem que obrigatoriamente passar por esse momento de nascimento – e todo nascimento é um pouco misterioso.

Tudo o que nasce percorre certo período de latência, de gestação, de espera. Esse tempo de incubação – que geralmente ocorre no escuro, no vazio, no silêncio da inação – é estritamente necessário para consolidar aquele processo que denominamos de criatividade. Sim, o ato de criação envolve uma boa parcela de inação!

Veja bem alguns processos naturais: você coloca a semente dentro da terra. Na escuridão, no silêncio e na solidão um broto vai tomando forma, ação vai nascendo da inação. Dizemos que a forma vai emergindo do vazio. A mesma coisa acontece com a gestação de um bebê ou até mesmo durante o processo de cura de um ferimento ou uma doença.

Se o processo criativo da natureza funciona a partir deste lugar comum, por que seria diferente com a criatividade mental humana?

Sim, a criatividade também opera a partir de um lugar vazio de onde emergem todas as possibilidades. É o chamado vazio-cheio, de onde todas as flutuações visíveis partem para o mundo fenomenal. Isso vale para qualquer forma existente, para qualquer coisa que exista dentro deste mundo dos fenômenos, materiais ou imateriais. Esse chamado vazio é o celeiro, é a matriz existencial, é o pano de fundo de tudo o que é manifesto. É neste lugar que toda a energia que existe no Universo passa quando sofre uma transformação no final ou no início de um novo ciclo, ou seja, as energias de tudo o que morre e tudo o que nasce se encontram aí.

Vamos entender o processo criativo humano. Basicamente, podemos ser criativos em duas principais situações: diante de um problema, quando buscamos soluções para ele, ou simplesmente criando livremente sem uma demanda de solução específica. Por exemplo, quando você está dentro do carro, dirigindo, e “sem querer” você começa a cantarolar um verso que veio à cabeça, compondo assim o primeiro trecho de uma música. Quando isso acontece, o processo criativo não foi instigado para solucionar uma situação problema, ele aconteceu naturalmente e trouxe algo que não existia anteriormente. Tudo bem, essa via é bastante sutil, você precisa estar bem acordado para “pegar” aquilo que está emergindo, uma vez que não foi fruto de esforços continuados – pelo menos naquele momento. Digamos que você se colocou numa postura relaxada, descontraída e por isso permitiu a livre comunicação entre o mundo consciente e essa matriz existencial de tudo. A partir daí, depois que a ideia chave emergiu, então você arregaça as mangas e vai aperfeiçoa-la.

Já quando você se debruça sobre um problema, o foco é encontrar uma solução. Neste caso, nem sempre a solução será criativa no sentido estrito do termo, pois você pode usar uma combinação de soluções que já existem. Mas ainda assim, para vislumbrar esse caminho de soluções viáveis, é necessário ser inspirado pelo vazio criador. Se você bloqueia essa inspiração, você não consegue criar a combinação necessária. Então, desta perspectiva, mesmo usando soluções já existentes você ainda pode ser criativo.

Assim, de uma forma ou de outra você irá precisar de sintonia com esse silêncio criador para dar forma a uma solução para um problema ou para gerar algo que ainda não existe. Tem um ditado no zen que é assim: “a melhor resposta para uma questão emerge naturalmente no silêncio da mente”. Ou seja, há uma forma de comunicação criativa entre você e a matriz universal que se dá a partir do silêncio, sem muitas interferências ou preocupações. Aquela coisa de “quanto mais me esforço, menos consigo criar” é verdade, pois neste caso é o excesso de esforço que está bloqueando o que ainda está por vir. Neste sentido, na verdade somos apenas instrumentos de uma energia criadora, e não os criadores propriamente ditos. Mas isso não funciona se forçamos a barra.

Acredito que a meditação é um grande treinamento para abrir esse canal de comunicação com a criatividade. Não é necessário perseguir à força uma solução, ou se agarrar na urgência de criar. Apenas nos colocamos abertos ao que pode emergir.

A página em minha frente continuava em branco. Coloquei a coluna reta, e por alguns minutos fiz a respiração abdominal, como fazemos em zazen. Não procurei encontrar nada. Silêncio mental. De repente, o cursor do Word começou a se mover e as primeiras palavras foram escritas. O resultado é exatamente esse texto que vocês acabaram de ler.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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