Raspar a cabeça

Já de volta ao Brasil, estava vendo hoje algumas fotos da viagem ao México. Muitas coisas interessantes e bonitas foram registradas, mas há outras que uma câmera não pode captar.

Por exemplo, me lembrei de Andrew, um canadense de uns vinte e poucos anos que encontramos em um hotel na Península de Yucatán. Viajava sozinho, e aparentemente buscando a essência do próprio caminho, marca inconfundível de quem bota uma mochila nas costas e sai por aí a andar pelo mundo. Na verdade, ninguém faz isso sem uma motivação, sem uma busca interior já aflorada.

Começamos a conversar, e ele se interessou rapidamente pelo tipo de viagem que eu e Léo estávamos fazendo. Uma viagem menos turística e mais voltada para a compreensão do antigo povo Maya. Pirâmides, sítios arqueológicos, cultura, tradições antigas e rapidamente o foco da conversa foi para o autoconhecimento.

Então Andrew me perguntou o que eu fazia no Brasil. Dentre outras coisas, disse a ele que ensinava meditação. E que havia estado no Japão, e que ali eu havia sido ordenado como Monge Zen. Andrew demonstrou grande interesse em saber detalhes da minha experiência nos monastérios em que estive, especialmente sobre o treinamento psicológico. A essa altura da conversa, bastante fluida e agradável, ele me perguntou por que os monges raspavam a cabeça.

Eu expliquei a ele que isso vem da Índia antiga, quando a divisão entre as castas sociais era identificada, dentre outras coisas, com o corte de cabelo que as pessoas usavam. Por exemplo, certos coques eram permitidos apenas aos nobres, príncipes e reis. Então, quando um discípulo se aproximava de Buddha e pedia refúgio em sua comunidade de seguidores e praticantes, a primeira orientação dada por ele era a de raspar a cabeça em sinal de desapego à casta de origem, à autoimagem, como condição de admissão. Em outras palavras, é uma prática de desapego ao ego e à imagem de si mesmo.

Andrew ia escutando tudo muito atento. E eu também, por ele ter demonstrado esse incomum interesse nas perguntas que me fazia. Às vezes, ele acenava positivamente com a cabeça, demonstrando entendimento. Outras, ficava curioso.

Então ele me perguntou:

– Qual foi a coisa mais importante do treinamento para você?

– Aprender a me relacionar de forma mais justa com as pessoas e com a realidade – respondi.

Tudo isso não durou mais que meia hora de papo. No dia seguinte, encontrei novamente com Andrew no hotel.

Ele havia raspado a cabeça.

Esse fato me deixou impressionado, uma impressão que vai além das palavras. Aquele rapaz tinha captado o ensinamento budista prontamente, a ponto de fazer o que muitos praticantes hesitam durante anos, ou seja, cortar o apego com a autoimagem.

Seria sensato ponderar que isso poderia ter sido um ato meramente mecânico, imitativo, movido por delusão ou por uma identificação ainda mais egóica com a imagem do monge. Mas esse não era o caso de Andrew, pelo menos naquele momento. Havia uma sinceridade e uma força na expressão facial dele. Ele realmente estava buscando o Caminho.

Saímos do hotel na manha seguinte e eu nunca mais vi Andrew. Não trocamos qualquer contato.Eu não sei por quanto tempo ele vai manter a decisão que tomou, mas aquele ocorrido foi um ensinamento claro: você pode ser um veterano com décadas de meditação acumulada, ou um noviço que acabou de entrar no monastério – a prática e a realização do Caminho estão ao alcance de ambos.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

Anúncios

3 opiniões sobre “Raspar a cabeça”

  1. eu tenho cabelo loiro e sempre raspo sou criticado dizem que as mulheres acham feio em fim nao mudo gosto de ser assim como dizia um velho deitado qem gosta de homem bonito e viado mulher gosta de dinheiro

    Curtir

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s