O samurai e o gato

Um conto zen

“Um samurai pescava à beira de um rio. Havia já um bom tempo que nada beliscava, quando de repente um grande peixe mordeu o anzol. Muito feliz, dispunha-se a guardá-lo na cesta; mas eis que subitamente um gato escondido entre os juncos da margem, de um pulo lhe arrebatou o peixe e se escondeu no matagal para devorá-lo.

O samurai, tomado pela raiva, desembainhou sua espada e, num golpe certeiro, cortou a cabeça do animal. Mas, uma vez passado seu furor e tomando consciência de sua vil ação, envergonhou-se profundamente e um grande remorso tomou conta dele. Este samurai era muito espiritualizado e a morte do indefeso gato por suas próprias mãos, em decorrência de sua cólera descontrolada, produziu-lhe uma profunda angústia.

Ao regressar para casa, a água do rio lhe dizia: “miau!”; o vento entre as árvores lhe murmurava: “miau!”; as pessoas que passavam o saudavam: “miau!”; sua esposa e seus filhos, quando chegou ao lar, receberam-no com um “miau!”. Recostou-se e, ao fechar os olhos, “miau!”. Ao amanhecer, os pássaros na janela cantavam: “miau!”.

O samurai, desesperado, não conseguia se livrar da obsessiva lembrança do gato. Foi então que se lembrou de um velho mestre que vivia perto de sua casa. Foi vê-lo e contou-lhe o lamentável incidente e suas penosas conseqüências. O mestre o olhou de cima a baixo e disse-lhe:

– É abominável! É inconcebível que um guerreiro como você não possa se livrar dessa obsessão. Você não é um samurai! Você merece a morte! Terá que fazer o harakiri; mas como eu sou uma pessoa compassiva, vou ajudá-lo a morrer. No momento em você afundar o punhal no ventre, cortarei a sua cabeça para que sofras menos.

O samurai concordou e, depois de agradecer ao mestre por sua grande compaixão, dispôs-se para a cerimônia. O mestre se colocou atrás do samurai com uma espada preparada para cortar-lhe o pescoço no momento preciso.

–          Está preparado?

–          Sim, mestre.

–          Pois então comece.

O samurai colocou a ponta do punhal abaixo do umbigo e, aspirando profundamente, começou a empurrá-lo para dentro…

–          Um momento!

–          Sim, mestre.

–          Ouve agora o miado do gato?

–          Não, mestre.

–          Se já não o ouve, também não precisa mais morrer.”

Depois de ler essa agradável historieta, fiquei me perguntando sobre nossas obsessões, nossos fantasmas criados pelo sentimento de culpa que carregamos após alguma atitude impensada ou tomada de forma precipitada.

Em última análise, o sentimento de culpa é inútil, pois ele simplesmente não funciona, ele não ajuda em nada quando estamos em uma situação onde o mais importante é reparar o dano que eventualmente provocamos. A culpa é um fantasma que só serve para assombrar e causar insegurança, o que por sua vez pode provocar ainda mais confusão e sofrimento. A base do sentimento da culpa é o medo, às vezes medo de não ser compreendido, de não ser aceito, de ser reprovado pelo que fizemos. Mas esse sentimento só gera mais isolamento e incompreensão, ele nunca transforma a realidade de forma positiva.

Bem diferente do sentimento de culpa é o arrependimento, que quando legítimo e sincero torna-se uma parte importante do processo de reparação de danos causados. É claro que às vezes as consequências dos nossos atos podem ser irreversíveis, como decepar a cabeça do gato, mas creio que uma atitute sincera de arrependimento pode amenizar e transformar os efeitos dos nossos erros. Por exemplo, um pedido sincero de desculpas, o reconhecimento do erro e a disposição em não errar mais. O arrependimento pode ser o catalisador de uma reação de aperfeiçoamento da personalidade, um marco que simboliza um ajuste em nossas atitudes e em nossa vida.

O sentimento de culpa traz um peso, um culpado e, consequentemente, uma condenação. Ele não ajuda. Mas o arrependimento sincero liberta, porque ele tem o poder de invocar o dom do perdão, que é um dom facultativo e natural de todos os seres humanos. Frente a um arrependimento sincero, vindo da alma, é difícil negar o perdão. E quando perdoamos libertamos não só o arrependido, mas também a nós mesmos, pois a mágoa que alimentamos é somente o contrapeso da culpa do outro, ou seja, aprisiona do mesmo jeito. A mágoa é a contraparte da culpa, assim como o perdão é do arrependimento. Alimentar mágoas é reforçar as correntes da prisão, mas arrepender-se e perdoar é destruí-las.

O samurai foi procurar o mestre com um profundo arrependimento. O mestre, por sua vez, não podia fazer outra coisa senão libertá-lo do assombro do fantasma da culpa, que nem existia mais na verdade.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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