Os defeitos dos outros

Não é difícil para nós notarmos os defeitos das outras pessoas, pois eles freqüentemente nos irritam e nesse estado negativo ficamos convencidos de que aquilo que pensamos é o certo e que por isso temos o direito de julgar. E nós ficamos prontos para criticar, e ao fazer isso esquecemos que o nosso pensamento está baseado nas nossas próprias opiniões, que não são completamente imparciais. Num certo sentido, todas as nossas opiniões estão erradas, pois elas estão enraizadas na ilusão do nosso ego: “eu tenho, eu quero, eu farei; eu acredito, eu sei, eu penso.” No nível relativo, essas nossas opiniões podem retratar a verdade, mas a verdade relativa não poderá nunca ser suficiente para nos satisfazer completamente, pois no fim, ela pode expressar apenas a verdade de um ego contra a de um outro ego. Uma pessoa acredita nisso, uma outra acredita naquilo; uma faz isso de um jeito, uma outra faz isso exatamente do jeito oposto. A verdade construída em torno da noção de um ego não pode ser absoluta e pura. Na melhor das hipóteses, ela reflete preferências pessoais. A verdade relativa não pode ir além disso.

Partindo do ponto de vista da verdade absoluta, temos um quadro muito diferente. A partir dessa perspectiva, nós começamos a entender que os defeitos que nos preocupam nos outros deveriam ser reconhecidos em nós mesmos com o mesmo interesse. Os defeitos dos outros são um reflexo dos nossos próprios, pois do contrário não seríamos capazes de reconhecê-los. Quando vemos alguém com raiva ou exibindo-se com ostentação, nós reconhecemos esses defeitos por já termos experienciado esses estados em nós mesmos. Nós sabemos como essas reações emocionais surgem e como as sentimos. Do mesmo modo, diz-se que só um Buda pode reconhecer um Buda, porque só um iluminado conhece a iluminação.

Quando nos damos conta de que estamos criticando outras pessoas, deveríamos entender que estamos no caminho errado. É improvável que a nossa crítica terá alguma utilidade; pensando bem, quando foi que alguém mudou depois de ser duramente criticado? Espalhar negativismo é sempre prejudicial, principalmente para nós mesmos. É provável que uma outra pessoa fique irritada conosco e se reagirmos com raiva e ressentimento, entraremos num círculo vicioso de mais negativismo ainda, e possivelmente perderemos um amigo.

Portanto, a crítica não ajuda – mas ficar ciente, sim. Se, por exemplo, notamos alguém agindo sem atenção plena, a reação correta seria, “Eu me pergunto quão atento estou neste momento?” E essa é a única resposta válida. Se observarmos algo inábil no comportamento de uma outra pessoa e quisermos criticá-la, deveríamos nos lembrar que a crítica é prejudicial para nós mesmos.

Quando a crítica repetida se tornar um hábito, nós teremos entalhado marcas de negativismo dentro de nós mesmos. Provavelmente todos nós conhecemos alguém que faz da crítica um hábito, e nós sabemos o quão desagradável é escutá-lo. Portanto, devemos estar alertas para com as nossas críticas, e evitar que as outras pessoas sofram com esse hábito desagradável. Deveríamos também estar conscientes de que cada vez que criticamos, estamos gradualmente formando um hábito.

E se, ao contrário, usarmos a oportunidade para observar o que está acontecendo com as outras pessoas, poderemos usar o que notamos no comportamento delas como um tipo de espelho de nós mesmos. E esse é um espelho precioso, porque embora ele não nos proporcione uma vista dos nossos traços físicos, ele nos permite começar realmente a difícil tarefa do autoconhecimento.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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