A Consciência sem Limites

Prezados leitores do ALD;

Gostaria de compartilhar um texto fantástico do filósofo conteporâneo Ken Wilber, que nos coloca em contato direto com a experiência da Consciência sem Limites. Reserve 10 minutos do seu tempo e procure ler o texto completo e sem interrupções. Tenho certeza que será bastante proveitoso.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen. 

A CONSCIÊNCIA SEM LIMITES

Uma experiência sugerida por Ken Wilber
“A Consciência da unidade é a simples consciência do verdadeiro território sem limites.
Para VIVÊ-LA, não precisamos de truques, de fetiches,
de jargão místico ou miasmas do ocultismo.
 A Consciência da unidade é então o estado natural da consciência
que reconhece a pura realidade tal como ela é.
Em resumo, a Consciência da unidade é a Consciência sem Limites.
 
Por mais simples que possa parecer, no entanto, é extremamente difícil discutir adequadamente a Consciência sem limites ou a Consciência da unidade.
Isso ocorre porque nossa linguagem – o meio no qual toda discussão verbal deve flutuar –
é uma linguagem de limites.
 As palavras, os símbolos e os próprios pensamentos são, na realidade, apenas limites, pois toda vez que pensamos ou usamos uma palavra ou nome, já estamos criando limites.
Mesmo quando dizemos “A realidade é Consciência sem limites”,
ainda criamos uma distinção entre limite e não-limite!
Então, devemos ter em mente a grande dificuldade acarretada pela linguagem.
Sim, “a realidade é sem limites”, contanto que nos lembremos que
a Consciência sem limites é uma consciência direta, imediata,
  não-verbal e, de modo algum, uma mera teoria filosófica.

 É por essas razões que os sábios mestres enfatizam que a realidade encontra-se além de nomes e formas, palavras e pensamentos, divisões e limites.

Além de todos os limites está o verdadeiro mundo da Quididade,
O Vazio, O Tao, O Brahman, A Divindade.
Na REALIDADE PURA não há limites entre sujeito e objeto, eu e não-eu,
observador e observado. (assim nos dizem os mestres e textos antigos)
Eu enfatizo esse ponto, e me alongarei nele por todo este trabalho, porque de todos os limites que o homem constrói, o limite entre o eu e o não-eu é o mais fundamental.
É o limite que mais relutamos em abandonar.
Afinal, foi o primeiro limite que traçamos.
É o nosso limite mais estimado. Investimos anos para fortalecê-lo e defendê-lo,
para torná-lo seguro. É o próprio limite que estabelece nossa noção
de sermos um ente separado. É a medida do nosso envelhecimento, cheios de anos e memórias, até que começamos a entrar no nada final da morte,
que é o último limite que abandonamos.
O limite entre o eu e o não-eu é o primeiro que traçamos e o último que apagamos. De todos os limites que construímos, esse é o limite primário.
Tão fundamental é o limite primário entre o eu e o não-eu que todos os nossos outros limites dele dependem. Não somos capazes de distinguir limites entre coisas até que tenhamos nos distinguido das coisas. Todo limite que nós criamos depende de nossa existência separada,
Certamente, todos e quaisquer limites são obstáculos à Consciência da unidade.
Mas já que todos os nossos outros limites dependem deste limite primário,
ver através dele é ver através de todos.
Num certo sentido, isso é extremamente oportuno, pois, se tivéssemos de lidar com todos os nossos limites em separado, um por um, levaríamos toda uma vida, talvez várias, para dissolvê-los e obter a “libertação dos pares de opostos”.
Contudo, ao focalizar o limite primário, nossa tarefa torna-se enormemente simplificada.
É como se nossos diversos limites constituíssem uma pirâmide invertida de blocos, todos eles repousando no bloco da extremidade inferior.
Se retirarmos esse bloco, o edifício todo desmorona.
Podemos analisar esse limite primário sob muitos ângulos e sob muitos nomes.
Ele é a separação irredutível entre aquilo que chamo “eu” e aquilo que chamo “não-eu”:
eu aqui e os objetos lá.
É a ruptura entre o sujeito cognoscente e o objeto conhecido.
É aquele espaço entre meu organismo e o meio ambiente.
É a brecha entre o “eu” que agora lê e a página lida.
No todo, é a brecha entre a pessoa que vivencia e o mundo vivenciado.
Portanto, parece que, no lado de “dentro” do limite primário, existe o “eu”, o sujeito, o que pensa, sente e vê. Do outro lado há o não-eu, o mundo dos objetos lá fora,
o meio ambiente, estranho e separado de mim.
PORÉM, na Consciência da unidade, na Percepção sem limites, a noção do eu altera-se
de modo a incluir, sem omissões, tudo o que antes foi considerado como não-eu.
E, é óbvio, isso não pode ocorrer enquanto o limite primário que separa o eu do universo é erroneamente interpretado como sendo verdadeiro.
Assim, se em certa medida conseguirmos começar a ver através do limite primário, a noção da Consciência da Unidade não estará muito longe de nós.
A partir do que foi dito, é bastante fácil chegar à conclusão errônea de que tudo o que devemos fazer para entrar na Consciência da Unidade é destruir o limite primário.
Falando grosseiramente,
o raciocínio parece verdadeiro,
mas a situação real é muitíssimo mais simples.
De fato, não precisamos ter o trabalho de tentar destruir o limite primário,
 por uma razão extremamente elementar:
O limite primário não existe.
Como todos os limites, ele é apenas uma ilusão.
Apenas parece existir.
(Quando você cerca uma planície e cria um limite,
você não alterou, de fato, a continuidade real do terreno.)
Fingimos que existe, supomos que existe,
comportamos-nos como se ele existisse.
Mas não é o caso. E se formos em busca do limite primário,
não descobriremos dele qualquer vestígio, pois os fantasmas não tem sombra.
Neste exato momento, e quero dizer bem agora, enquanto você está lendo isto, não existe um limite primário verdadeiro, e, portanto, neste exato momento,
não há uma barreira à Consciência da unidade.
Logo, não sairemos à procura do limite primário para depois tentar destruí-lo.
Na verdade, isso seria um grave erro, ou, pelo menos, uma colossal perda de tempo,
pois não se pode destruir o que não existe.
Podemos apenas compreender e ver através da própria ilusão,
que se dissolve no instante da percepção.
Na verdade, não há limite algum;
há apenas a idéia do limite, do “eu”, alimentada ano após ano.
Sob este ponto de vista, mesmo a tentativa de destruir o limite primário através de atividades elaboradas tais como a ioga, a concentração mental, as preces, o ritual, o jejum –
tudo isso simplesmente supõe a realidade do limite primário,
e portanto reforça e perpetua a própria ilusão que pretende destruir.
Em vez de supor que o limite primário é real e depois tomar providências para tentar eliminá lo, primeiro iremos em busca do limite primário propriamente dito.
E, se de fato é uma ilusão, nunca acharemos um vestígio dele.
Poderemos então compreender espontaneamente que aquilo que pensávamos estar obstruindo nossa Consciência da unidade nunca existiu.
E, como veremos, esse insight já é uma experiência da Percepção sem limites.
Agora, o que realmente significa procurar o limite primário?
Procurar o limite primário é procurar muito cuidadosamente a sensação de ser um eu separado, um ente que vivencia e sente, permanecendo distinto das experiências e sentimentos.
Estou sugerindo aqui que, se procurarmos cuidadosamente esse “eu”, não o encontraremos.
E, já que esse sentimento de ser um eu isolado parece ser o maior obstáculo à Consciência da unidade,procurá-lo e não o encontrar já é vislumbrar a própria Consciência da unidade.
Segundo o grande sábio Padma Sambhava:
Se o próprio ser que procura, ao procurar-se, não puder ser encontrado, o objetivo e também o próprio fim da busca terão sido atingidos.”
No início de tal experiência, devemos ser bem claros com relação ao que realmente significa essa “ausência do eu” ou “ausência do limite primário”.
Não significa uma perda de todas as sensibilidades; não é um estado de transe, caos, tumulto, ou comportamento descontrolado. Não se trata de uma explosão de minha mente e corpo, que a seguir fundem-se numa Grande Massa Informe de algum tipo em algum lugar.
(Não perca o contato com a realidade)
Não tem nada em comum com a regressão esquizofrênica, que não transcende de modo algum o limite do eu /não-eu, mas, ao contrário, embaralha-o e confunde-o.
Quando falamos de “perda do eu” queremos dizer isto:
A sensação de ser um ente separado é uma sensação que foi mal compreendida e mal-interpretada, e é a dispersão dessa interpretação errônea que nos interessa.
Todos temos aquela sensação, aquele sentimento radical de ser um ente isolado separado no nosso fluxo de experiências e ilhado do mundo à nossa volta. Todos nós temos, de um lado o sentimento do “eu”, e de outro o sentimento do mundo externo.
No entanto, se observarmos cuidadosamente a sensação de “eu aqui dentro” e a sensação de “mundo lá fora”, verificaremos que essas duas sensações são, de fato, UMA E MESMA.
Em outras palavras, aquilo que agora sinto ser o mundo objetivo lá fora é a mesma coisa que sinto ser o eu subjetivo aqui dentro.
A separação entre a pessoa que vivencia e o mundo das vivências não existe, e, portanto, não pode ser encontrada.
De início, isso pode soar muito estranho,
porque estamos acostumados a acreditar em limites.
Parece óbvio que eu seja aquele que ouve os sons,
aquele que tem sentimentos, aquele que vê cenas.
Mas, por outro lado, não é estranho que eu me descreva como o
OBSERVADOR QUE OBSERVA AS COISAS OBSERVADAS?
OU O OUVINTE QUE OUVE OS SONS OUVIDOS?
Será a percepção assim tão complicada?
Será que realmente envolve três entidades-
Um observador, a observação e o que é observado?
Com certeza, não existem aqui três entidades separadas.
Será possível a existência de um observador
sem o ato de observar ou sem algo a ser observado?
Será possível existir o ato de observar sem um observador
ou sem algo a ser observado?
O fato é que o observador, a observação e o que é observado
são todos aspectos de um só processo-
nunca, em tempo algum um,
um deles é encontrado sem os outros.
Nosso problema é que temos três palavras –
“observador” observação” e “observado”-
para designar uma única atividade, a
EXPERIÊNCIA DE TESTEMUNHAR.
Poderíamos também descrever um único curso de água como
“a corrente corre a correnteza”.
Isso é completamente redundante e introduz três fatores onde na verdade só existe um.
No entanto, hipnotizados como estamos pela magia verbal, supomos a existência de uma entidade separada, o “observador” que, através de algum tipo de processo chamado “observar”, adquire conhecimento de uma outra coisa ainda chamada o “observado”.
Então supomos naturalmente que somos apenas o observador,
totalmente divorciados do observado.
Nosso mundo é assim então separado bem ao meio, com o “observador aqui dentro” confrontando, do outro lado de um abismo profundo, as coisas “observadas lá fora”.
Mas vamos voltar ao início do próprio processo de Vivência e verificar se o que se vivencia é de fato completamente distinto do vivenciado. Comecemos com o sentido da audição.
Feche os olhos e preste atenção ao verdadeiro processo de ouvir.
Note todos os sons diferentes flutuando por aí –
pássaros cantando, carros roncando, grilos cricrilando,
crianças rindo, a televisão gritando.
Mas, com todos esses sons, note que há uma coisa que você não pode ouvir, não importa quão atentamente escute cada som:
Você não pode ouvir o ouvinte.
Isto é, para além de todos esses sons,
você não consegue ouvir um ouvinte daqueles sons.
Não conseguimos ouvir o ouvinte porque ele não existe.
O que nos ensinaram a chamar de “ouvinte” é, na verdade, apenas a própria
Experiência de ouvir,
e não somos capazes de ouvir o ouvir.
Na realidade, há apenas um fluxo de sons, e esse fluxo não se divide em sujeito e objeto. Não há limites aqui.
Se deixássemos a sensação de ser um “ouvinte” que habita dentro do crânio e se nos dissolvêssemos no próprio ato de ouvir, poderíamos descobrir o suposto “EU” fundindo-se com a totalidade do mundo dos “sons de fora”.
E isso significa que não ouvimos sons, nós somos esses sons.
O ouvinte é todo o som ouvido, e não uma entidade separada que recua e ouve o ouvir.
O mesmo é verdadeiro com respeito ao processo da visão. Quando olhamos cuidadosamente o campo visual, ele parece quase suspenso no espaço, suspenso no nada.
Contudo, este campo consiste em um padrão infinitamente rico de luzes entrelaçadas, cores e nuanças, formando tudo isso uma montanha aqui, uma nuvem ali, um riacho acolá.
Mas, entre todas as cenas visíveis, há ainda uma coisa que não podemos ver, não importa o quanto forçamos a vista.
Não podemos ver o observador desse campo visual.
Quanto mais tentamos ver o observador, mais nos intriga a sua ausência.
 Durante anos, supusemos com toda naturalidade
que nós éramos o observador que via as cenas.
Mas no momento que passamos a buscar o observador, não encontramos vestígio dele.
De fato, insistindo em tentar ver o observador,
tudo o que encontramos são coisas vistas.
Isso apenas quer dizer que eu, o “observador”,
sou idêntico a todas aquelas cenas agora presentes.
O assim chamado observador é nada mais que tudo o que é visto.
 Ao olharmos uma árvore, não há uma experiência chamada  “árvore” e outra experiência chamada “vendo a árvore”.
Há apenas a experiência única de ver-a-árvore.
Não vemos esse ver, assim como não cheiramos o olfato
ou não degustamos o paladar.
Parece que, onde quer que procuremos um eu separado da experiência,
ele desaparece dentro dela.
Quando procuramos o experimentador,
descobrimos apenas outra experiência –
o sujeito e o objeto sempre demonstram ser uma só coisa.
Essa é uma realidade bastante perturbadora e, por isso, você pode estar se sentindo muito confuso, sentado aí pensando nisso tudo.
Mas levemos a coisa adiante só mais um pouco.
Enquanto você está aí pensando sobre isso, pode também encontrar o pensador que realiza essa atividade?
Em outras palavras, existirá um pensador
que pensa o pensamento “estou confuso”,
ou existirá apenas o pensamento
 “estou confuso”?
Há, com certeza, apenas o pensamento; se houvesse também um pensador, será que você já não o teria encontrado?
Parece óbvio que aquilo que erroneamente acreditamos ser um pensador é, na verdade, nada mais que o próprio fluxo de pensamentos.
Havia apenas o pensamento presente –  “estou confuso”.
Quando, então, você procurou o pensador desse pensamento, tudo o que encontrou foi outro pensamento, isto é, “estou pensando que estou confuso”.
Nunca encontrou um pensador separado do pensamento, o que quer dizer apenas que os dois são idênticos.
É precisamente por isso que os sábios aconselham-nos a não tentar destruir o “eu”, mas apenas a procurá-lo, porque toda vez que o procuramos tudo o que encontramos
é a sua previa ausência.
Mas, mesmo já tendo começado a compreender que não existe um ouvinte, nem um degustador, nem um observador, nem um pensador isolado, ainda é provável que encontremos dentro de nós um sentimento nuclear, irredutível,
de que somos entes separados e isolados.
Ainda há aquela sensação de ser separado do mundo lá fora.
(huuu…)
Há ainda aquele sentimento íntimo que de algum modo me conheço como sendo meu “eu” interior. Mesmo se não posso ver, degustar ou ouvir a mim mesmo,
definitivamente posso sentir a mim mesmo.
Bem, será que você pode encontrar, além do sentimento que agora chama de seu “eu”,
um sentidor que está fazendo o sentimento?
Novamente, essa sensação nuclear de ser um sentidor que tem sentimentos
é ela própria apenas um outro sentimento.
O “sentidor” não passa de um sentimento,
assim como pensador é apenas um pensamento e o degustador é apenas o gosto.
Também nesse caso, não há um sentidor separado e diferente dos sentimentos –
e nunca houve.
Assim, a conclusão inevitável começa a nos ocorrer;
não existe um eu separado do mundo.
Sempre supusemos haver um vivenciador separado, mas no momento em que realmente partimos à sua procura, ele desapareceu dentro da experiência.
Como afirma Alan Watts,
“Há apenas a experiência”.
“Estou ótimo”
 quer dizer que um sentimento ótimo está presente.
(só  isto)
Não significa a existência de uma coisa chamada “eu” e de outra coisa separada chamada “sentimento”, de modo que, quando colocadas juntas, esse “eu” sinta os sentimentos ótimos.
Não existem sentimentos que não sejam os sentimentos presentes,
 e qualquer sentimento presente é  um “eu”.
Ninguém jamais encontrou um “eu” separado de uma experiência, ou uma experiência separada de um “eu”- o que quer apenas dizer que os dois são a mesma coisa.
Agora, quando você começa a compreender que não existe uma brecha entre “você” e suas experiências, será que não começa a perceber o fato de não haver brecha entre
“você” e o mundo que é vivenciado?
 Você não ouve o som do trovão, você é o som do trovão.
A sensação interior chamada “você” e a sensação exterior chamada “o mundo” são uma mesma sensação.
O sujeito interior e o objeto exterior são dois nomes para uma única realidade, a única coisa que pode ser experimentada.
Isso significa que seu estado de consciência neste momento,
quer você se dê conta quer não, já é a Consciência da unidade.
Neste momento, você já é o cosmo,
você já é a totalidade de sua experiência atual.
Seu estado atual é sempre o de Consciência da unidade,
porque o eu separado, que parece ser o grande obstáculo
a essa consciência, é sempre uma ilusão.
Não precisamos tentar destruir o eu separado, já que, para início de conversa, ele não existe.  Tudo o que precisamos fazer é procurá-lo, e não seremos capazes de encontrá-lo.
O próprio fato de não o encontrar é um reconhecimento da Consciência da Unidade.
Por mais estranho que tudo isso possa parecer à primeira vista, a percepção interior de que não existe um eu separado sempre foi óbvia para os mestres e sábios de todas as épocas, e constitui um dos pontos centrais da Filosofia perene.
O resumo dos ensinamentos de Buda exprime tudo:
O sofrimento existe, mas ninguém que sofra;
O apego existe, mas não quem se apegue;
O caminho existe, mas ninguém que o percorra;
O Nirvana existe, mas ninguém que o alcance.
Essa exata compreensão é universalmente considerada a libertação de todo sofrimento.
Podemos afirmá-lo positivamente: quando compreendemos que nosso eu é o todo, então não há nada fora de nós mesmos que possa causar sofrimento.
Não há nada fora do universo contra o qual possamos chocar-nos.
E podemos afirmá-lo negativamente:
Essa compreensão é uma libertação de todo sofrimento porque é, a priori, uma libertação frente à idéia de que há um eu que pode sofrer. Como afirma Wei Wu Wei:
“Por que você está infeliz?
Porque 99,9 por cento
De tudo o que você pensa e
De tudo o que você faz
É para você mesmo-
E você, isolado em si mesmo, não existe.”
Apenas as partes sofrem, não o Todo.
Quando compreendemos que não existe a parte, caímos no Todo.
 Quando percebemos que não existe eu algum (e isso ocorre neste exato momento), percebemos que nossa verdadeira identidade é sempre a
Identidade Suprema .
 
E esse é o nosso verdadeiro eu.
Para onde quer que olhemos,
veremos nossos rostos originais em toda a parte.
“És  Isso. O teu verdadeiro Eu é idêntico à Energia suprema da qual todas as coisas no Universo são uma manifestação.”
Esse eu verdadeiro recebeu, das diversas tradições místicas e metafísicas, dezenas de nomes diferentes durante a história da humanidade. É conhecido como o Filho Divino,
Al-insan
Al-Kamil
Adam-Kadmon
Ruarch Adonai,
Nous,
Pneuma
Purusha
Tathagatagarbha
Estado de Buda
Homem Universal
Deus
Brahman-Atman
Ipseidade.
E todas essas palavras são apenas símbolos
do verdadeiro mundo do sem-limites.
Os mestres nos dizem, unânimes, que
“O Reino dos Céus está dentro de nós”.
Como costumava dizer Swami Prabhavananda;
“Quem, o que você pensa que é?”
Absoluta, básica e fundamentalmente, bem lá no fundo?”
Essa realidade é a Testemunha dos três estados de consciência (vigília, sonho e sono profundo), e é diferente dos cinco sentidos.
Essa realidade é Cognoscente de todos os estados de Consciência.
Consideremos esta excelente citação do mestre Zen Shibyama:
“Ela ( a Realidade) é “Subjetividade Absoluta”, que transcende tanto a subjetividade como a objetividade e livremente cria e usa de ambas. É “subjetividade fundamental”, que nunca pode ser objetivada ou conceitualizada, e é completa em si própria, contendo a plena significação da própria existência. Chamá-la por esses nomes constituí já um erro, um passo em direção à objetivação e à conceitualização. O Mestre Eisai observou, nesse sentido, que ela é sempre inominável”.
 
Precisamos reconhecer as dificuldades que enfrentamos ao tentar descrever a inefável experiência da Consciência da Unidade,
pois ela é uma Percepção sem limites,
 enquanto todas as nossas palavras e pensamentos são apenas limites.
Entretanto, isso não é um defeito restrito a uma língua em particular, mas é inerente a todas as línguas devido à sua própria estrutura. Uma língua possui uma utilidade apenas na medida em que pode construir limites.
O problema é que a estrutura de qualquer língua não consegue captar a natureza da Consciência da Unidade, assim como um garfo não consegue apanhar o oceano.
Logo, nós precisamos vivenciar por nós mesmos a Consciência da Unidade.
 Nesse sentido, o Caminho é puramente experimental.
“Não pense, apenas olhe!”
Exclamou Wittgnstein.
Mas, olhar para onde?
É essa a questão a que os mestres universamente
respondem dizendo, “olhe para dentro.”
Necessitamos da prática de olhar para dentro,
para que possamos perceber o Vazio,
e reconhecer a inexistência de um “eu” separado.
E dissolver a Grande Ilusão.
Ver que o corpo grosseiro, composto dos sete humores, não sou eu; que os cinco órgãos do sentido, que captam seus respectivos objetos, não sou eu; que até a mente que pensa, não sou eu.
Mas então o que poderia ser nossa verdadeira natureza?
Ela não pode ser meu corpo, porque posso senti-lo e conhece-lo, e aquilo que pode ser conhecido não é o Cognoscente Absoluto.
Ela não pode ser meus desejos, esperanças, medos e emoções, pois até certo ponto posso observá-los e senti-los. Não é aquilo que pode ser minha mente, minha personalidade, meus pensamentos, pois tudo isso pode ser testemunhado, e aquilo que pode ser testemunhado não é a Testemunha absoluta.
Ao procurar persistentemente o eu verdadeiro dentro de nós, na verdade estamos começando a perceber que ele não pode mesmo ser encontrado dentro de nós.
Costumávamos pensar sobre nós mesmos como o “pequeno sujeito” aqui dentro que observava todos aqueles objetos lá fora.
No entanto, aqui se encontra o nosso principal problema.
A maioria de nós supõe que pode sentir-se, conhecer-se ou perceber-se, ou pelo menos ter de certa forma consciência de nós mesmos.
Temos essa sensação até mesmo agora. No entanto, o fato de que posso ver, ou conhecer, ou sentir meu “eu” neste momento, leva-me a concluir que esse “eu” não pode de modo algum ser o “verdadeiro eu”.
 É um falso eu, um pseudo-eu, uma ilusão, um engodo.
Inadvertidamente, identificamos-nos com um complexo de objetos, todos conhecidos ou passíveis de ser conhecidos.
Esse complexo de objetos cognoscíveis não pode ser o verdadeiro Cognoscente ou verdadeiro Eu, porque são todos, e cada um, limites da realidade.
Nós nos identificamos com nosso corpo, mente e personalidade, imaginando que esses objetos constituem nosso verdadeiro “Eu”, e passamos a vida inteira tentando defender, proteger e prolongar aquilo que é apenas uma ilusão.
Somos vítimas de um caso epidêmico de identidade trocada,
e nossa Identidade Suprema, silenciosamente, espera ser descoberta.
Minha mente, meu corpo, meus pensamentos, meus desejos – nada disso constitui o meu verdadeiro Eu, nem tampouco as árvores, as estrelas, as nuvens e as montanhas, pois posso testemunhar todos esses objetos com igual acerto.
Prosseguindo desse modo, torno-me transparente para o meu eu verdadeiro, e percebo que, de algum modo, aquilo que sou vai muito além desse organismo isolado, limitado pela pele.
Quanto mais penetro dentro de mim mesmo,
mais me deixo para trás.
A medida que essa investigação avança, ocorre aquilo que o Lankavatara Sutra chama de
“uma reviravolta na base mais profunda da consciência”.
 Quanto mais procuramos o Observador Absoluto, mais percebemos que não podemos encontrá-lo na forma de um objeto particular e limitado.
 E a razão por que não conseguimos encontra-lo na forma de um determinado objeto é porque ele é todo objeto!
Não conseguimos senti-lo porque ele é tudo o que sentimos.
Não conseguimos vivencia-lo porque ele é tudo o que é vivenciado, em sua totalidade.
 Nada do que podemos observar é o Observador Supremo – porque Ele é tudo o que vemos.
 À medida que penetramos dentro de nós mesmos para procurar nosso verdadeiro eu, encontramos apenas o mundo.
Mas algo estranho ocorreu agora, pois percebemos que o verdadeiro eu dentro de nós é, na verdade, o mundo exterior, e vice-versa. O sujeito e o objeto, o lado de dentro e o lado de fora são e sempre serão a mesma coisa. Não existe limite primário.
 O mundo é nosso corpo,
o lugar de onde observo e aquilo que observo.
Já que o verdadeiro eu não está nem dentro nem fora, já que o sujeito e o objeto na verdade não são coisas distintas, o mestre pode falar da realidade de muitas maneiras diferentes, contraditórias apenas na aparência.
Pode dizer que em toda a realidade não existe objeto algum.
Pode afirmar que a realidade não contém sujeito algum.
Pode negar a existência tanto do sujeito como do objeto.
Talvez agora se torne óbvio que, apesar das formulações teóricas complexas que com freqüência cercam a filosofia intelectual,
a essência do ensinamento correto é clara, simples e objetiva.
O intelecto é dual e limitado, e jamais vai chegar à Unidade.
Dizer que a realidade é não-dual
é dizer que a realidade é sem limites.
Cada coisa e acontecimento no cosmos interdependem de e inter-relacionam-se com todas as outras coisas e acontecimentos no cosmos.
A descoberta do mundo real sem limites é a
Experiência da Consciência da Unidade.
Não é que na Consciência da Unidade estejamos olhando para o verdadeiro território sem limites. (não há um “eu” olhando!)
 Não; a Consciência da Unidade é o
próprio território sem  limites .
“Apenas” isso, e isso é a nossa
 Verdadeiro Natureza.”

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s