Bens ou serviços?

Por Leonardo Vaz de Melo

Pegando um gancho no post do Gustavo Mokusen, “O Consumo te Consome”, vamos falar um pouco sobre o consumo de serviços mascarados de bens.

É notório que há um despertar das empresas para o fenômeno da (escravização) fidelização do cliente.

Esse fenômeno pode ser visto em exemplos simples, necessidades que não tínhamos há alguns, não muitos anos, em serviços e bens duráveis que, nem tão duráveis assim, são pagos através de mensalidades. É obvio que isso traz para as organizações, sustentabilidade financeira. Se você tem uma carteira de clientes, pagando, mensalmente, determinada quantia, é possível planejar. E planejar é a alma dos negócios. Todos os cursos, treinamentos e palestras gerenciais atuais focam no planejamento, e isso é salutar. Mas para planejar é preciso certa previsibilidade, que se obtém, em parte, com uma receita baseada na cobrança “líquida e certa” com periodicidade definida.

Voltando aos exemplos, você poderia se surpreender se eu te dissesse que determinados bens duráveis não são tão duráveis assim, pois existem armadilhas ocultas para que você seja forçado a substituí-lo em muito pouco tempo.

No que tange a tecnologia, podemos citar de computadores à smartphones. Os softwares são responsáveis pela interface do usuário com o hardware, e são constantemente atualizados, o que faz com que o hardware se torne obsoleto em muito pouco tempo. Por exemplo: Um smatphone comprado a 3 anos, da maior fabricante do mercado, não possui mais atualização devido ao seu hardware defasado. Porém, vejamos: Esse equipamento possui tela touchscreen, GPS embutido, capacidade de multiprocessamento (vários aplicativos simultâneos), dentre outros recursos, que, teoricamente, fazem dele um equipamento bem atual. Então o que ocorre? Ocorre que a indústria, no sentido de forçar a troca em um período anual ou bienal, desenvolve softwares que simplesmente tornam o modelo anterior lento demais para execução das tarefas, forçando o consumidor a trocar o seu hardware ou ficar desatualizado, às vezes impedido de usar um “novo” recurso presente somente na versão atualizada e “inchada” do novo software.

Foi-se o tempo em que não se mexia em time que estava ganhando. Simplesmente porque time que ganha vai à falência por vender uma só vez. Não há continuidade no processo cíclico de vendas onde há previsibilidade e continuidade nas receitas da empresa. Na nova perspectiva, é possível deixar a famigerada senóide para uma curva quase plana no gráfico dos seus balancetes, evitando grandes investimentos naquilo que custa mais caro, o hardware.

O que ainda se percebe são empresas, principalmente de tecnologia, fabricando novos produtos com pouca inovação no hardware, e muita inovação no software, e ainda não fornecendo determinadas atualizações, mesmo que o modelo anterior de hardware comporte, apenas para “fidelizar” o cliente”. Por acaso, lhe é familiar a troca de uma TV porque o novo modelo executa um novo formato de vídeo? Muitas vezes, o que permite tal execução é um conjunto de codecs, ou seja, software!

Voltando aos serviços, podemos citar exemplos que ajudam a engordar a conta das despesas fixas, que não existiam outrora: TV a cabo, telefonia fixa e celular, seguros (casa, carro, vida), planos de saúde, pacotes de internet para casa e para o celular, mensalidades de clubes, pacotes turísticos anuais divididos de 12 vezes (e no ano seguinte, novamente), garantias estendidas, estacionamento, financiamento de veículos/ imobiliário a perder de vista, móveis e eletrodoméstico em 60 prestações, que, quando na verdade, duram 5 anos, ou 60 meses…

Na verdade, todo o orçamento acaba comprometido em prol da “qualidade de vida”, em uma vida que cultua o descartável, o bem não durável, ciclicamente, até que a morte os separe.

Como bem disse Gustavo Mokusen, “há uma relação estreita entre a sobrecarga de trabalho, o consumo em excesso e o desequilíbrio emocional”. Em muitos casos, o consumo em excesso – uma armadilha moderna, é o combustível do sistema.

Anúncios

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s