Palavras podem machucar

Há um antigo ditado que diz: “Há três coisas que não voltam mais: a pedra lançada, a palavra falada, a chance perdida”. Como seres sociais que somos, usamos a todo o momento a linguagem e a comunicação com as pessoas que nos cercam. E a palavra falada pode ser, ao mesmo tempo, uma grande ferramenta que nos ajuda a sermos compreendidos ou, em situações extremas, uma arma potente que fere e machuca os outros.

Acredito que devemos encontrar uma forma habilidosa ao usarmos as palavras. O clichê “tudo tem sua hora e a sua maneira de ser dito” faz muito sentido, pois a fala leva muito mais do que a mensagem verbal. A fala é uma carta endereçada, mas que quando aberta libera não somente as palavras e frases que contém, mas também toda uma significação que vai muito além disso. Se uma mesma expressão pode assumir diferentes significados ao mudarmos apenas a entonação da voz, o que dizer de conteúdos inteiros que são ditos em momentos impróprios ou com uma força desnecessária… Devemos usar sempre a metáfora que diz que os ouvidos dos outros são como uma xícara de rara porcelana, e nossas palavras são o chá que vamos ali cuidadosamente verter; não podemos nem quebrar a xícara, nem colocar quantidade insuficiente de chá e nem transbordar o conteúdo com uma fala excessivamente turbulenta.

No famoso Caminho Óctuplo do Budismo, que é o caminho para o autoconhecimento e para a libertação da consciência, a “Fala Correta” é um dos oito aspectos de treinamento. Devemos usar de meios hábeis para nos expressarmos, caso contrário nossa fala trará mais desarmonia do que a paz que tanto almejamos. Não devemos ser brutos ou excessivamente enérgicos, e nem tampouco devemos deixar de nos expressar com clareza. A fala correta é aquela que sincroniza perfeitamente quem fala e quem ouve, e assim produz mútuo entendimento. Devemos estar conscientes de que há inúmeras situações diferentes, assim como existem inúmeras pessoas diferentes, e por isso a “Fala Correta” deve sempre se adaptar às circunstâncias que se apresentam. Os antigos textos afirmam que Buddha possuía 84 mil diferentes métodos para ensinar, de forma que todos os tipos de seres humanos podiam ser tocados por suas exposições, de uma forma ou de outra.

Falando nisso, a “fala” não é apenas a linguagem verbal. Falamos de várias formas, com o corpo, com o olhar, com um gesto ou ação. Tudo que causa significação no outro é linguagem, é fala. Quando partimos deste entendimento, o campo da nossa questão amplia-se ainda mais! Portanto, atenção com as palavras que não são faladas e que são ditas assim mesmo! Nossas linguagens extrapolam muito a linguagem verbal…

O problema da palavra falada de supetão, aquela que machuca, é o mesmo problema da pedra atirada ou da chance perdida: depois que acontece, não tem mais como refazer. E dá aquele arrependimento, não? Por isso, muito cuidado nos momentos críticos, aqueles em que o sangue ferve. Redobre a atenção quando se sentir atingido pela fala de alguém, pois a tendência é revidar e a coisa só vai piorar. Alias, excelente exercício quando alguém dispara palavras contra você é se esquivar, testar sua flexibilidade – não se identifique com o conteúdo que está sendo disparado, entenda que a catarse de uma pessoa enfurecida provavelmente tem mais a ver com os problemas que ela carrega e essa é a forma de extravasar a pressão interna que ela encontrou.

Sei que é muito difícil exercitar a linguagem compassiva em tempos em que muitos estão com a ansiedade e estresse à flor da pele, mas o treinamento da fala correta é assim mesmo. Seu combustível é a atenção plena e sua intenção é a iluminação de consciências.

Votos de Luz,

Gustavo Mokusen.

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