Relacionamentos: não deixe a peteca cair!

As relações que temos são o termômetro da nossa inteligência social, sejam elas relações familiares, profissionais, de amizade ou amorosas. Passamos a maior parte das nossas vidas em relacionamento com os outros, e é muito difícil, para não dizer impossível, abster-se de todo e qualquer relacionamento neste mundo cada vez mais interligado. Por isso, as relações são uma grande oportunidade de autoconhecimento. Afinal, quem nunca esteve em uma relação que exigisse crescimento interior e sacrifício?

Eu tenho uma analogia: uma relação é como um jogo de peteca jogado no “mano a mano”, ou seja, duas pessoas apenas, uma de cada lado da rede. Você pode aplicar essa analogia para qualquer tipo de relacionamento que tiver. Só que esse jogo é um pouco diferente; o objetivo não é fazer a peteca cair do outro lado, mas sim mantê-la no ar o maior tempo possível. Peteca no chão, os dois perdem ponto. Isso quer dizer que você e seu parceiro do outro lado da rede terão que se esforçar para mantê-la no ar. Quer dizer que não adianta mandar aquele canhão de cortada achando que está abafando, ou então dar aquela pingadinha maliciosa, pois se o seu parceiro não conseguir pegar os dois perdem. Significa também que quando a peteca vier toda torta, aquelas petecas difíceis, esticadas no fundo da quadra e rodando com efeito, você vai ter que se esforçar pra defender bem e, ainda, devolver amaciada do outro lado. Não adianta repassar a dificuldade. Se você já jogou dessa forma, sabe do que estou falando. Nossas relações são exatamente isso: a arte de não deixar a peteca cair.

Às vezes chegamos cedinho no trabalho e já vem uma peteca rasteira: você dá um pulo, mal pega essa e já vem outra do lado. Tudo bem, vamos suando, consertando e devolvendo uma por uma. Faz parte. Um amigo te telefona e fura um compromisso, mas se você devolver com uma cortada furiosa a peteca vai pro chão. A mão coça, mas lembre-se: nesse jogo não adianta reagir, o negócio é agir. Você amacia e avisa em voz alta: “cuidado aí, ow, essa quase caiu!” Daí, quando você pensa que o jogo acabou, eis que chega em casa, cansado depois de um dia inteiro dando pulo prá lá e prá cá, e  então lá vem aquela peteca de efeito… Não tem nem como desviar, e essa vem no seu peito, o negócio é se virar e pegar mais uma.

A primeira lição desse jogo é: cada parceiro tem uma habilidade diferente e um jeito peculiar de jogar. Não vai adiantar repetir jogadas ensaiadas, nem esperar que o fulano faça como o beltrano. E por isso também é preciso saber medir ritmos e forças, nem pra mais, nem pra menos. Segundo: se os dois jogam limpo, peteca no alto. Jogada suja e maldosa não funciona, pode provocar lesões e faz com que a dupla desanime e perca o gás. E, por fim, se começar a ventar forte não se engane: os dois vão ter que se esforçar mais. Em períodos de dificuldade não adianta culpar seu parceiro pela peteca difícil, trate de estimular positivamente o jogo na adversidade.

Acredito que a grande sacada é a comunicação, os famosos “combinados” de uma relação. Combine o tamanho da quadra que vão usar em cada partida, os limites, a altura da rede e os pontos fortes e fracos de cada um. Se a sua canhota é mais fraca, você pode pedir ao seu parceiro para mandar mais na sua direita. Não se esqueça que esse é um jogo onde não há competitividade, ou pelo menos não deveria haver. Não pode haver segredos ou mistérios. Quando alguém mandar uma cortada, amacie e avise: “ó, quase caiu!“. Acho que o problema é esse: fomos treinados a vida toda para a competição, para ganhar, para dificultar mais do que facilitar, para sermos reconhecidos individualmente. Até o dia em que entendemos que numa relação nada disso funciona mais. Ganha-se “com” alguém, e não “de” alguém. E descobrimos que o adversário é nossa impaciência, arrogância, ansiedade e, principalmente, a expectativa de receber só peteca boa, só filé.

Sim, é preciso suar a camisa, esforçar-se. Ninguém disse que seria fácil. E também não gostamos de coisas fáceis, seja sincero, há em nós a constante necessidade de superação. Cuide também da sua condição física, não vá se lesionar à toa. Procure entrar em partidas construtivas, aquelas que irão te fazer um petequeiro cada vez melhor, e evite as improdutivas. Não se esqueça que uma partida nunca é igual a outra e, quando a peteca cair no chão, pegue, dê o saque e recomeçe a jogar dando o melhor de si, lembrando que numa relação ninguém erra ou acerta sozinho.

Votos de luz e de boas partidas,

Gustavo Mokusen. 

 

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3 opiniões sobre “Relacionamentos: não deixe a peteca cair!”

  1. é como Rubem Alvez falou: em um relacionamento, você e seu parceiro não podem deixar a peteca cair, vocês tem que jogar juntos.

    “O prazer está no próprio jogo, puro sentimento. Uma outra coisa é jogar peteca com um parceiro. Agora o que é divertido não é o exercício solitário jogador-peteca (amante-amor). O que é divertido é a relação que se estabelece. Mas essa relação exige que o outro me devolva a peteca.
    Você está me dizendo que você deve jogar a peteca, mas o seu parceiro não a devolve. A peteca cai no chão. Acho que é isso que você quer dizer ao falar “retribuição”. Você está jogando sozinha(o) o jogo do amor. Sua pergunta poderia ser traduzida assim: como jogar o jogo da peteca sem esperar que o meu parceiro me devolva a peteca?.
    Minha resposta é simples e direta: em tais condições não existe jogo algum. E a prova de que não existe jogo algum está no fato de que você me amandou essa pergunta.
    São três as alternativas:
    1- Você para de jogar peteca. Joga a peteca fora. Aprende a jogar outro jogo – o jogo do trabalho, por exemplo.
    2 Você se conforma em jogar peteca sozinha(o), isto é, consola-se com o “sentimento amoroso” infeliz.
    3 – Você para o jogo, pega a peteca e vai procurar outro parceiro que tenha prazer em jogar a peteca com você.

    A escolha quem faz é você. “

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  2. também adorei. Tudo fica melhor quando olhado de um outro prisma e essa figuração de relacionamento com o jogo de peteca, foi ótima. Parabens e que tenhamos mais leituras como essa e agora, que venham as “petecas”.

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