Finanças, consumo e bem-estar

Por Allyson Bastos

No Fedro, de Platão, faz calor e Socrates está sob um carvalho. Ele encontra uma fonte, refresca as mãos, repousa à sombra e encontra ali a perfeita consonância entre si e o que o circunda. Isto é dar “sentido” às coisas. Sócrates não precisa de nada mais, não é como Onassis ou Trump, que cortam o mar com seus iates e mil acessórios” (O Ócio Criativo, de Domenico de Masi).

Talvez duas facetas da paradoxal inquietação humana nos tempos atuais sejam a ansiedade financeira e a busca desesperada pelo bem-estar espiritual.

A ansiedade financeira pode ser entendida como um produto da cultura do consumo e do imediatismo, que nos pressiona a termos, hoje, mais do que podemos, queremos e, principalmente, mais do que precisamos. É fruto, também, da pretensa eleição do dinheiro como a mais relevante unidade de medida de valor de todas as possibilidades de realização do ser humano. E assim, vende-se falsamente a ideia de que sensações, conhecimentos, experiências e relações estão cada vez mais à nossa disposição… desde que, e apenas na medida em que, possamos pagar por isso.

E a busca pela satisfação das infindáveis demandas impostas deságua, muitas vezes, no consumo desenfreado. Daí vem o endividamento, que ao comprimir ainda mais a capacidade de sustentar o consumo, gera mais ansiedade, alimentando um círculo vicioso.

Da percepção do desajuste que há entre as necessidades naturais próprias do ser humano e os modos de satisfação vazios e desprovidos de sentido impostos pela cultura do consumo e do imediatismo é que surge a busca desesperada por fórmulas mágicas para se alcançar o equilíbrio espiritual, como uma espécie de fuga da realidade.

Primeiramente, preciso dizer que sou cético quanto a fórmulas que prometem resolver as ansiedades do mundo moderno tão somente pela ação no plano espiritual ou psicológico. Do mesmo modo, tenho convicção que ninguém se torna equilibrado em sua plenitude tão somente por ter um bom emprego, com um alto salário, enfim, por estar “bem resolvido” no plano material.

Na verdade, creio que a busca conjunta pelos equilíbrios material e espiritual tem um grande potencial. Uma vida espiritual e emocionalmente equilibrada favorece o desenvolvimento da inteligência financeira na medida em que fortalece nossa imunidade contra os apelos consumistas. Por outro lado, uma inteligência financeira bem exercitada nos garante melhores condições materiais de nos dedicarmos mais ao nosso desenvolvimento espiritual. Forma-se, então, um círculo virtuoso.

É preciso, pois, aceitar que o desejo de prosperar materialmente pode e deve ser conjugado com a busca pelo desenvolvimento interior. Não há pecado algum em buscar melhores condições financeiras. Pelo contrário, a riqueza é sempre bem-vinda quando não direcionada simplesmente ao “ter mais”, mas sim ao “ser em paz”.

Na busca por uma vida sustentável, temos que nos esforçar para precisar de menos. Aquela roupa caríssima é realmente necessária neste momento? Realmente preciso trocar de carro agora? Preciso mesmo viver tanto das aparências? Um espírito evoluído certamente tem mais condições de refrear esses impulsos, por possuir a lúcida percepção de que o valor das coisas está não no “quanto custam”, mas sim no “quanto significam”.

Não prego uma visão radical de que devamos nos privar das coisas boas da vida material. Não tenho tal desprendimento e acredito que muito dificilmente o terei. Penso que devemos apenas cultivar o consumo consciente. Aquele que, de fato, nos traz bem-estar sem efeitos colaterais.

Concomitantemente ao esforço por nutrir menos demandas, é salutar que busquemos informação, que aprendamos a lidar com o dinheiro, com nossas finanças pessoais, mas não a ponto de ocuparmos todo o nosso tempo com números, índices, propostas de investimentos etc. Digo que devemos dedicar às finanças apenas o tempo necessário para garantir que não precisaremos nos preocupar com dinheiro. E isso basta.

Aí reside a nobre missão da educação financeira: propiciar condições materiais para que possamos viver em paz, desfrutando plenamente os bons momentos que realmente nos engrandecem espiritualmente.

Para terminar, voltemos à cena descrita no início deste texto.  O filósofo realmente teria a paz de espírito necessária para encontrar a perfeita consonância entre si e aquilo que o circundava naquele momento de extrema simplicidade (mas de absoluta satisfação), caso tivesse prestações vencendo, dívidas acumuladas e credores batendo à sua porta?

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