Quando já é agora

Nunca ouvi dizer de um segundo que não passasse, de uma hora que durou para sempre ou de um dia que não teve começo e fim. Temos essa plena consciência (e experiência) sobre a transitoriedade das coisas e tempos, dos lugares e de tudo o mais o que nos cerca. Entao, por que resistimos tanto às mudanças?

A questão da impermanência é fundamental neste Universo. Tudo o que é composto torna-se, um dia, decomposto. Nada é permanente, tudo ocupa uma certa condição durante um intervalo de tempo e, num momento posterior, transforma-se. Então, por que se apegar?

As mudanças, as transformações e a interminável sucessão do tempo têm uma coisa em comum: elas acontecem no mesmo ponto, chamado de agora. Ou seja, tudo o que acontece só pode acontecer no agora. Isso parece simples, mas é uma constatação muito interessante. O passado e o futuro simplesmente não existem agora. Claro que o seu agora pode receber influências por causa dos efeitos daquilo que foi feito no passado, ou você pode moldar seu presente pensando no futuro, mas o fato é que só existe o agora. O agora está também eternamente ligado ao aqui, sendo que no aqui-agora formam uma continuidade eterna e onipresente; para onde quer que você vá, em qualquer momento da sua vida, sempre será aqui-agora. Ler esta página é o seu aqui-agora. A sua vida passa neste momento e neste lugar.

Em outras palavras, você não pode fugir ao aqui-agora. Mais uma vez isso parece simples, não é? Bom, se é tão simples assim, por quê será que gastamos a maior parte das nossas energias tentando fugir deste aqui-agora? A insatisfação nos ronda, a maior parte do tempo ou estamos focados no passado ou sonhando com o futuro incerto. Fazemos guerra por causa disto. E assim, perdemos a única coisa que poderíamos realmente desfrutar: o presente, aqui. É neste lugar e neste tempo que as coisas podem acontecer e que se pode agir, o que passa disto é recordação ou imaginação.

Imaginem se Alex Honnold, o nosso escalador free solo, decidisse escalar olhando para o abismo. Ou então olhando só para o cume da montanha. Isso não funciona, ele não veria onde exatamente tem que colocar a mão e o pé para se manter na parede, ele não poderia agir adequadamente momento após momento. Ele cairia. Ele tem que olhar para cada situação presente com focalização máxima, com resolução máxima, e decidir passo a passo. O passado não importa mais, o futuro é uma construção no aqui-agora.

Há uma passagem zen que é mais ou menos assim: um monge noviço chega ao monastério ansioso por atingir a iluminação. Após alguns dias praticando com o grupo, não se contém e vai perguntar ao monge superior: “mestre, como alcanço a iluminação?”. O mestre respondeu: “Já comeu sua refeição?”. “Sim”, disse o noviço. “Então vá lavar sua tigela” finalizou o mestre Joshu.

Vá fazer o que você deve fazer agora, isso é a iluminação. Essa pode ser uma interpretação desse curto diálogo. Ou ainda, o que você estiver fazendo agora e aqui faça com total entrega, com total atenção. Não há outro caminho, não há atalhos. Se estiver preso ao passado ou sonhando com o futuro, você cairá da montanha.

O aqui-agora pode ser uma experiência muito interessante, constantemente vivida com frescor e vitalidade. Mas para desfrutar disso é preciso aceitar a impermanência e a constante mutação que acontecem neste mundo. É necessário soltar a mão de uma agarra para colocá-la em outra, e assim continuar a subir. É necessário fazer as pazes com esse aqui-agora, porque simplesmente é aí que passamos a vida inteira. Falando nisso, já é agora.

Votos de luz

Gustavo Mokusen

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Uma opinião sobre “Quando já é agora”

  1. Viver um dia após o outro. Essa também é minha filosofia de vida. Isso me faz perceber o caminho que foi percorrido, o que estou percorrendo e o que está para ser percorrido, sem saudosismo, sem atropelamentos. Me faz sentir o ar que respiro, o cheiro que ixala, a textura que toco, a música que ouço…me faz perceber detalhes.

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