Que inimigo?

“Inimigo: pensamento.

Venho praticando o zazen há algum tempo e já pude obter experiências maravilhosas através dessa prática. Mas, de uns tempos pra cá, venho achado cada vez mais difícil me livrar completamente dos pensamentos. Tenho certeza que já consegui fazer isso antes, mas parece que todas as vezes em que procuro me concentrar, mais longe minha mente vai. É como se eu tivesse piorado, por mais estranho que isso pareça. Nada que possa abalar necessariamente a minha paz ou a minha felicidade. Eu só gostaria de chegar em um ponto em que me visse completamente dentro do aqui-agora, sem me perder no dualismo da mente. Você acha que existe alguma ferramenta para me fazer chegar mais perto desse estado? Ou outra maneira de focar minha atenção?”

Mestre Dogen, patriarca do Zen Budismo Japonês no século  XIII, dizia: “zazen shikantaza”. Zazen é a meditação da escola zen budista. “Za” é sentar. “Zen” vem do chinês “Chan”, que por sua vez tem origem na palavra em sânscrito “Dhyana”, e todas elas significam a experiência do despertar através da atenção plena da mente. Significa experimentar a natureza das coisas, a realidade dentro da própria realidade – tal qual ela é, indizível, maravilhosa, completa. Em resumo, essa é a experiência básica do Budismo.

Shikantaza” é uma palavra em japonês que significa: apenas sentar. É a forma autêntica do zazen, ou seja, é a prática pela prática, sem finalidade de ganho, sem medo de perda, sem nenhuma intenção de acréscimo; apenas sentar. O pássaro canta, a chuva cai, a grama cresce; apenas sentar. Mente atenta, respiração profunda e lenta, pernas cruzadas, coluna ereta; apenas sentar. É dito que essa é a forma mais elevada do zazen porque não há nenhuma contaminação com idéias de lucro ou perda, nada a alcançar, nada a se apegar. Realidade tal como ela é, agorinha mesmo.

Acontece que nós estamos sempre procurando algo para ser alcançado. Não gostamos muito da idéia de alcançar o real pelo real. Criamos identificações. E aí criamos o inimigo, que basicamente é tudo aquilo que se opõe à nossa intenção. O zazen é poderoso justamente porque desarma esse mecanismo pela base. Isto é, quando o zazen é feito como shikantaza. Mas quando repetimos na meditação nossos mecanismos de identificação, então começamos a criar expectativas e desejos. O zazen é a experiência do que é; mas acontece que neste campo denominado “o que é” estão incluídos também nossos pensamentos. Os pensamentos jamais irão parar de brotar na mente, são como secreções mentais. E não há nada de errado nisso. Apenas não se apegue a eles. Eles brotam, vivem por um instante e depois retornam ao vazio. Não se identifique com os pensamentos no zazen, nem mesmo com o pensamento de fazer zazen ou qualquer outra coisa.

Eu gostaria de chegar a um ponto em que me visse completamente dentro do aqui-agora” – você já está dentro desse ponto, apenas abandone a idéia de alcançá-lo, pois é essa idéia que te afasta da experiência. Nada pode te colocar dentro da realidade tal qual ela é, pois você já está dentro dela neste exato momento. Nada pode te tirar da realidade tal qual ela é, pois nada que existe está fora dela.“Livrar-me completamente dos pensamentos” – isso já é um pensamento. Entende? Simplesmente atinja, pela postura ereta, o ponto da experiência que existe antes de todas essas concepções.

Seu pensamento não é inimigo: é apenas pensamento que brota e que passa dentro dessa incrível e indizível realidade. Se comprar essa briga, você vai perder. Sem luta, sem fuga. Portanto, apenas sente-se calmamente, coluna ereta, repirando profundamente; sem julgamentos de certo ou errado, de sucesso ou fracasso. Apenas experimente este momento tal qual ele é e cultive sua mente pacificada, com ou sem pensamentos.

Votos de luz,

Gustavo Mokusen

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