Sem medo de baratas

Depois do primeiro post no ALD eu recebi várias mensagens positivas e construtivas das pessoas, e eu queria aqui agradecer a todos vocês. Um email interessante que recebi de um amigo dizia que “o mundo é um palco para nossas atuações”, esse amigo é músico e eu achei muito interessante essa afirmação dele, essa analogia. No palco temos que improvisar, criar, encantar; é lá que nos mostramos, nossos talentos, nossas fraquezas. E quem nunca sentiu medo de subir e ficar exposto frente aos holofotes? Eu mesmo morria de medo de me apresentar nas audições quando era estudante de violino na UEMG, vinha aquela tremedeira, aquela suadeira na mão na hora de fazer os exames na frente dos professores. Teve uma vez que, para piorar ainda mais a situação, pousou um passarinho na janela da sala onde acontecia a prova e começou a cantar alto, e eu olhei para o pianista que me acompanhava e comecei a me desconcentrar, comecei a desafinar feio, e quanto mais eu errava mais alto o danado do passarinho cantava, hahahahaha, hoje eu dou risadas, mas naquele momento eu me senti muito mal porque todo o trabalho de ensaio de 4 meses tinha ido pro ralo. Por isso eu gostaria de falar hoje um pouco sobre essa emoção que é o medo.    

Acho que podemos dividir a população do mundo em dois grandes grupos básicos: aqueles que têm medo de baratas e os que têm medo de outra coisa qualquer. Claro, tem também aqueles que pertencem aos dois grupos. O medo é uma emoção natural do ser humano. Isso significa que ele faz parte da nossa natureza, e é normal sentir medo de alguma coisa. Porém, isso não significa que não podemos nos libertar deles. Eu particularmente confesso que sofri de pânico de barata por muito tempo, e eu não conseguia entender porque aquela criatura me causava tamanho mal estar. A primeira coisa que tratei de fazer foram perguntas chave como “como isso pode me assustar tanto??” ou “qual o meu medo, especificamente?”. Eu não sei se vocês percebem a força que esse tipo de pergunta traz, que eu chamo de perguntas de perfuração porque elas investigam a raiz de cada situação. Investigar a raiz dos seus medos é geralmente o primeiro passo para se tornar livre deles.

Daí eu me lembrei de um detalhe interessante da minha infância: é que eu sou de família antiga, daquelas numerosas, e acontece que várias vezes eu testemunhei minhas 5 irmãs (das quais 4 são mais velhas que eu) em completo ataque histérico quando uma barata aparecia lá em casa, geralmente minhas irmãs gritando e correndo acuadas num canto qualquer, vassoura na mão, e o inseto mais louco ainda, rodopiando para sair fora das vassouradas, isso quando não era barata voadora que ficava zangada e saia pro ataque aéreo, meu Deus, imaginem o impacto que isso causava num menino de 4 anos de idade. E a cena final era mais clássica ainda: berreiro do “mata, mata!”, o monstro esmagado no chão, perninhas agonizando nos últimos minutos antes de ser varrido, e o mundo então se tornava mais limpo e salvo daquela coisa que perturbava a paz e a ordem da minha casa.

Foi então que eu entendi que, na verdade, eu tinha aprendido a sentir aquele medo. E era um medo ilusório, pois não havia nenhum fundamento concreto nele – no máximo, asco ou repulsa. O ser humano é o bicho que aprende, e nada mais normal do que aprender emoções e sentimentos também. Isso parece simples, mas na verdade é uma constatação muito poderosa: aprendemos a maior parte dos medos que trazemos, assim como outras emoções.

A partir daí, quando comecei a ver e a entender a origem, a causa que impulsionava a minha reatividade, o meu medo foi perdendo força. O medo opera através da obscuridade, o que significa dizer que o mecanismo do medo ilusório é o mecanismo da ausência de luz, da ignorância no sentido de não saber. Não vamos confundir medo ilusório com prudência; eu sei exatamente como funciona um pára-quedas, mas sinto frio na barriga pra saltar e sou prudente o suficiente para puxar a corda no momento em que a altitude mínima de segurança é atingida.

Boa parte das nossas emoções é aprendida ou apreendida, são repassadas a nós em nosso contexto cultural, familiar e social que vivemos. Uma considerável fatia da nossa vida diz respeito a essas heranças; entendê-las, compreendê-las é o primeiro passo para desarmar o mecanismo da reatividade e ficar mais livre para subir no palco da vida com mais confiança, com mais conforto. E isso pode ser uma experiência muito gratificante.

E você? Tem algum medo do qual gostaria ter mais entendimento? Envie um email, vamos criar perguntas de perfuração para eles.

Com votos de luz,

Gustavo Mokusen.

Anúncios

Uma opinião sobre “Sem medo de baratas”

  1. Oi Gustavo! kkkkk, adorei este texto, o humor também é um santo remédio para o medo, não acha? Adorei o texto, especialmente qdo imagino o olhar de uma criança frente a clássica cena de ataque histérico/ barata/vassouradas:)
    Vou mandar email,
    Abraços e obrigada pelo texto!

    Curtir

Deixe seu comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s